Brasil e China, em três fases

Economista Lia Valls Pereira, do Ibre, mostra as diferentes etapas recentes da relação comercial entre o Brasil e a China.

Fernando Dantas

24 de junho de 2015 | 19h17

A participação da China nas exportações brasileiras saltou de 2% em 2000 para 18% em 2014. No mesmo período, a participação dos Estados Unidos caiu de 24% para 12%, e a da Argentina, principal parceiro regional, de 11% para 6%. Pensando-se em termos de regiões mais amplas, a participação asiática naquele período foi de 11,5% para 32,5%; a da União Europeia, de 28% para 18,5%; e da América Latina, de 24% para 19%. No caso da asiática, a China, evidentemente, foi o grande motor.

A economista Lia Valls Pereira, especialista em comércio internacional, enxerga três fases na ascensão da China como principal parceiro comercial brasileiro e, de certa forma, a economia externa que mais vem influenciando a estrutura produtiva do País.

De 2002 a 2008, foi a fase em que já se antevia e se discutia a grande importância da China para o Brasil. Nesta etapa, os preços das commodities já estavam subindo, e o Brasil no governo Lula vivia um momento de fundamentos macroeconômicos fortalecidos e bom desempenho de crescimento.

Mas o grande impacto do comércio internacional com a China se fez sentir de verdade na fase de 2008 a 2012, marcada em seu início pela grande crise global. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe econômica à época sempre fizeram um forte elogio à forma como o Brasil se desvencilhou rapidamente dos efeitos da grande crise e voltou a crescer. Na verdade, porém, foi exatamente neste ponto que os termos de troca brasileiros deram um forte salto, para um patamar extremamente favorável.

Como observa Lia, entre 2000 e 2008, a melhora dos termos de troca foi de 10%. Entre 2008 e 2011, o avanço foi de 22%. Nesta fase, a China deu uma enorme contribuição para o equilíbrio das contas externas brasileiras, sendo responsável por 55% do aumento das exportações nacionais. É verdade que o país asiático também respondeu por 28% do aumento das importações, mas o efeito líquido ainda foi amplamente positivo para a balança comercial.

A pesquisadora nota que hoje vivemos uma terceira fase da relação comercial com a China, com o fim do superciclo de commodities. De 2012 a 2014, as exportações brasileiras totais caíram, e a influência da China neste movimento quase não se fez sentir. O parceiro asiático, porém, foi decisivo para o aumento de importações que acabou tornando deficitária a balança comercial brasileira. Naquele período, as compras da China foram responsáveis por 53% do aumento das importações nacionais.

Dessa forma, a relação comercial com a China, que entre 2008 e 2011 ajudou o Brasil a equilibrar as contas externas (o País saiu de um déficit comercial com o parceiro asiático de US$ 3,5 bilhões para um superávit de US$ 11,5 bilhões), hoje atua em sentido inverso, com o saldo positivo tendo caído gradativamente para US$ 3,3 bilhões (2014).

Resta, portanto, o outro efeito do comércio com a China, que é uma poderosa força sobre a estrutura produtiva nacional, beneficiando as commodities e dificultando a atividade manufatureira. Em 2002, três produtos brasileiros respondiam por 57% das exportações para a China; em 2014, três produtos já englobavam 80% dessas exportações – os produtos são minério de ferro, soja, produtos siderúrgicos (2002) e petróleo e derivados (2014). Já as vendas chinesas para o Brasil são extremamente diversificadas, abarcando fundamentalmente produtos industriais. Lia também tem índices que mostram significativo efeito negativo da competição chinesa sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos e a América Latina, que são principalmente de produtos industriais.

A pesquisadora observa que o lado político da relação do Brasil com a China intensificou-se nos últimos anos, com a formalização do grupo dos Brics, que inclui ainda Rússia, Índia e África do Sul. Uma possível saída para tornar a relação econômica e comercial com a China menos indutora de primarização e desindustrialização seria a de atrair investimentos diretos do gigante asiático. Mas isso é uma pauta que apenas engatinha. Em 2014, a China respondeu por apenas 1,5% do investimento estrangeiro direto no Brasil. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 19/6/15, sexta-feira.

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