Choque externos afetam mais o Brasil

Recente trabalho de economistas do FMI mostra que o Brasil, como grande exportador de commodities, é particularmente afetados por choques externos, seja de preços de matérias primas ou outros. Para o bem e para o mal.

Fernando Dantas

23 de dezembro de 2020 | 10h59

A importância dos choques de termos de troca no crescimento econômico de países emergentes, em especial de exportadores de commodities, pode parecer um tema árido, mas tem implicações políticas quentes.

Até hoje é o que coloca em cantos opostos do ringue economistas liberais, muitos deles tucanos, com crítica arrasadora à “nova matriz econômica” do segundo mandato de  Lula e primeiro de  Dilma Rousseff; e, do lado oposto, policymakers ligados ao PT que participaram ou apoiaram parte da política econômica daquela época.

Esse segundo grupo se defende dizendo que a desaceleração econômica a partir de 2011/2012 deveu-se em grande parte ao choque negativo de termos de troca para o Brasil, depois de passado o pico do boom de commodities.

Já a profunda recessão de 2014-2016 e os anos de baixo crescimento que se seguiram, nessa visão, foram parcialmente causados pela própria reação de política econômica ortodoxa a partir de 2015, que exagerou no aperto fiscal e monetário (este de início).

Entender a relevância dos termos de troca para explicar flutuações econômicas, portanto, é um exercício relevante, e recente paper do FMI, produzido pelos economistas Federico Di Pace, Luciana Juvenal e Ivan Petrella, trata exatamente desse tema.

Os autores mencionam trabalhos teóricos em que 30% a 50% das flutuações do ciclo econômico surgem como causadas por mudanças de termos de troca, mas notam que pesquisas empíricas mais recentes sugerem que o impacto é limitado a 10%. Essa diferença é considerada um “quebra-cabeças”.

Para resolver o quebra-cabeças, os autores abordam o tema olhando separadamente para preços de exportação  e preços de importação, com dinâmicas distintas, em vez de focar apenas na variável síntese, isto é, os termos de troca – razão entre preços de exportação e importação. Adicionalmente, o estudo incorpora outros choques globais, em termos de comércio internacional, juros etc.

Séries de dados para um grupo grande de países desenvolvidos e emergentes foram coletadas e organizadas e se identificou uma série de “choques” externos com impactos nesses países.

Dessa forma, tratando separadamente de preços de exportações e de importações, os autores encontram impactos dos choques bem maiores – comparados aos da literatura empírica recente – sobre os indicadores macroeconômicos dos países exportadores de commodities.

Como nota Bráulio Borges, economista-sênior da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre-FGV, chama atenção em particular, o caso do Brasil, uma economia relativamente fechada ao comércio exterior, com altas tarifas de importação e conta de capitais que não é totalmente aberta.

Ainda assim, o estudo mostra que em torno de 50% da variabilidade do PIB brasileiro pode ser explicada por fatores globais. O Brasil se destaca no estudo do FMI como um dos países emergentes particularmente vulneráveis a choque externos.

Borges, em diversos trabalhos nos últimos anos, atribuiu por volta da metade da freada da economia brasileira a partir de 2012 a fatores globais.

Mas Borges não seria enquadrável no segundo grupo de economistas mencionados na abertura desta matéria, porque nunca esteve no governo e é bastante crítico de muitos aspectos da política econômica até 2014 (assim como tem críticas aos policymakers no comando da economia brasileira a partir de 2015).

De qualquer forma, ele aponta que “essa pesquisa do FMI aponta que o Brasil efetivamente é muito suscetível a esses choques mundiais”. O economista acrescenta que os choques não são só diretamente variações de preços de commodities, mas também flutuações do comércio internacional, juros etc.

“São variáveis fora do controle do policymaker nacional, mas que afetam bastante o nosso desempenho”, ele diz.

Assim, a política econômica, na sua visão, deve ter dispositivos anticíclicos na política fiscal, e possivelmente em algum tipo de controle de capital, para evitar consequências negativas como, por exemplo, a formação de bolhas de crédito em momentos de bonança.

Talvez, de fato, mais importante do que a discussão sobre de quem foi a culpa da última recessão, seja formular um arcabouço de política econômica que evite a próxima.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/12/2020, terça-feira.