Brasil no grupo mais frágil

Fernando Dantas

18 de julho de 2013 | 00h28

O Brasil faz parte de um grupo de países emergentes, que inclui Turquia, África do Sul e Indonésia, que foi pego com pé trocado pela piora do ambiente internacional a partir de junho, na visão de Edward Amadeo, economista da Gávea, gestora de recursos no Rio. Hoje, estes países têm pouca margem de manobra para lidar com o cenário externo mais desfavorável, com problemas como – nem todos sofrem da lista toda – inflação alta (agravado pela desvalorização do câmbio), baixo crescimento, política fiscal desarrumada e baixa ou nenhuma capacidade de fazer política econômica contracíclica.

Na outra ponta, estão países como Chile, Austrália, México e Nova Zelândia, que souberam usar bem o ciclo favorável de alta de commodities e juros internacionais extremamente baixos. No caso deste segundo grupo, e especialmente de Chile e Austrália, há espaço agora para estimular a economia com queda de juros e até algum impulso fiscal, se for o caso.

“O Brasil está no grupo dos ‘trapalhões’”, diz Amadeo, humoradamente.

Na Austrália e no Chile, o economista diz que a principal virtude foi a de manter uma política econômica consistente que ajudou a bonança das commodities a produzir um boom de investimentos no setor privado – diferentemente do Brasil, onde os bons ventos levaram a um boom de consumo, muito estimulado pelo próprio governo.

Amadeo nota que, enquanto os investimentos se aceleravam, Austrália e Chile mantiveram as rédeas da política fiscal e monetária relativamente apertadas, para contrabalançar a exuberância do setor privado. Agora, quando a piora internacional está fazendo murchar o ânimo dos investidores, é possível tentar reestimulá-lo com medidas contracíclicas monetárias e fiscais.

No grupo dos ‘trapalhões’, o cardápio de erros, na visão do economista da Gávea, foi variado. Turquia e Indonésia, por exemplo, mantiveram uma política fiscal razoável. No caso turco, porém, a política monetária foi expansiva, aquecendo a economia a ponto de levar a inflação e o déficit em conta corrente (como porcentagem do PIB) para a casa dos 7% (em junho, na verdade, a inflação da Turquia subiu 8,3% na comparação com o mesmo mês de 2012). A Indonésia seguiu um script parecido com o turco.

A África do Sul, na visão de Amadeo, apresenta um caso de deterioração da política econômica mais forte. O país não conseguiu fazer os investimentos em infraestrutura necessários, especialmente na área energética, para se beneficiar como poderia da alta da exportação de commodities. Hoje, tem problemas de crescimento, inflação e conta corrente. “A África do Sul não soube nem se aproveitar do boom”.

Já o caso brasileiro é caracterizado pelo descuido com a política fiscal e monetária no tempo das vacas gordas e a recaída no intervencionismo, com o resultado de que houve consumo demais e investimento de menos e, no momento da virada para pior do cenário externo, há pouca margem de manobra na política econômica.

Calmaria pode ser passageira

Amadeo acha que a atual calmaria relativa dos mercados, em comparação ao nervosismo e à altíssima volatilidade de junho, deve-se em parte à superação do ajuste técnico depois que Ben Bernanke, chairman do Federal Reserve (Fed, BC americano), sinalizou que a redução da política expansionista de compra de títulos estava no horizonte.

“Esses desmontes de posição não são lentos, graduais e lineares”, diz o economista da Gávea. Para ele, este tipo de ajuste dos investidores a uma nova realidade acontece de forma brusca, por causa do tamanho das posições e dos sistemas de stop-loss (que disparam vendas para desmontar posições a partir de certo nível de perdas). Ele nota que houve perdas expressivas de fundos macro de mercados emergentes e mesmo de hedge funds em junho.

No fundo da Gávea, que na área macro hoje é um só, com estratégia global (e não brasileira), Amadeo diz que o resultado foi bom, com estabilidade em junho e uma boa valorização em julho até agora.

“Nós antecipamos a desvalorização das moedas emergentes, mas em junho, exatamente pelo ajuste técnico muito forte, as correlações mudaram muito em relação à tendência no prazo mais longo – nós mantivemos as posições e estamos colhendo resultados agora”, ele explica.

Apesar da relativa acalmada do mercado nos últimos dias, Amadeo acha que a lógica do mercado de fato mudou, já que a relação risco/rentabilidade da volta dos capitais para os Estados Unidos ficou mais favorável, o que implica em efeitos duradouros nos mercados, como a pressão sobre as moedas emergentes.

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

Além disso, a volatilidade pode retornar a qualquer momento. “Tem muito coisa que pode acontecer dentro do que a gente consegue prever, para não falar do que não conseguimos, que é de onde geralmente saem os piores choques”, ele comenta, com uma ponta de ironia.

Na parte “visível” dos riscos, Amadeo aponta a possibilidade de uma desaceleração mais brusca ou um estresse financeiro mais forte na China, ou de algum evento traumático na Europa, onde uma nova rodada de problemas afeta países como Portugal, Espanha, Itália e França.

“A Europa é um barril de pólvora em termos políticos”, ele resume.

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