Brasil pode crescer mais nesta década?

Estudo dos economistas Ronaldo de Castro Souza Júnior e Fabio Giambiagi indica que capacidade ociosa atual e variáveis de investimento, produtividade, educação e demográficas criam espaço para ritmo anual de 2,5% sem desequilíbrio macroeconômico por vários anos. Mas e a restrição energética?

Fernando Dantas

16 de setembro de 2021 | 12h16

Em recente texto para a discussão do IPEA, os economistas José Ronaldo de Castro Souza Júnior e Fabio Giambiagi traçaram cenários para o PIB brasileiro até 2030.

No trabalho, como explicam os autores, simula-se “tanto a trajetória do PIB como a do produto potencial para tentar identificar o ponto a partir do qual a restrição de oferta passaria a ser efetiva, restringindo o ritmo de crescimento da economia”.

Os autores desenvolvem “uma contabilidade prospectiva do crescimento, com cenários para o capital fixo, para a demográfica e para a escolaridade, além de uma hipótese sobre a produtividade”. Toda a lógica do exercício e as hipóteses sobre capital físico, capital humano e produtividade são detalhadas nas seções do estudo.

Souza Júnior e Giambiagi procuram avaliar a interação entre a evolução do produto potencial e do PIB efetivo na década à frente, para saber até que ponto o primeiro pode ser tornar uma restrição ao segundo.

Com três hipóteses de ociosidade na partida – hiatos do produto de -6%, -5% e -4% –, eles encontram que o PIB pode crescer a uma média anual de, respectivamente, 2,6%, 2,5% e 2,3% naqueles três casos, sem esbarrar no limite do PIB potencial.

O economista Bráulio Borges, da LCA e do Ibre-FGV, que estima um hiato inicial (atual) de -5%, nota que, nas simulações de Souza Júnior e Giambiagi, o hiato do PIB só fecha em 2024 (no caso de -4% na partida) ou 2027 (-6%).

“Isso significa que o Brasil terá enfrentado cerca de dez anos de excesso de ociosidade na economia”, diz Borges.

O que, na sua visão, traz a questão da “histerese”, simplificadamente a perda de fatores de produção por falta de uso. Exemplos típicos são efeitos danosos sobre capital humano como consequência do desemprego de longo prazo, fuga de cérebros etc.

Essa visão sugere que, em termos de médio e longo prazo, a economia brasileira tem espaço para crescer e a política econômica poderia ser estimulativa.

O próprio Borges, entretanto, traz uma ressalva que vem sendo feita por alguns analistas: “E a energia elétrica”? Como aponta, o Brasil está em vias de ter um apagão mesmo com o péssimo desempenho do PIB nos últimos anos (e queda de 4,1% em 2020).

Ele ressalta, porém, que a capacidade de geração elétrica no Brasil cresceu muito acima do PIB nos últimos seis, sete anos, com novas grandes hidrelétricas na Amazônia e a expansão das fontes eólica, especialmente, e fotovoltaica.

O problema de curto prazo, prossegue o economista, “é que não tem ‘combustível’, isto é, não tem água para gerar energia hidrelétrica, ainda responsável por 60% da geração no Brasil”.

Ele menciona que essa carência de água tem ligação, segundo sérias análises, à mudança climática e às queimadas na Amazônia, que diminuem chuvas no Centro-Sul.

Na prática, a restrição hidrelétrica está levando à geração de energia com outras fontes de custo muito mais alto, como as termelétricas.

“Isso é uma restrição de oferta, que derruba o PIB potencial, mas é importante notar que se trata de uma restrição de curto prazo”, argumenta o pesquisador.

Para que a restrição se torne permanente, é preciso que não só o regime de chuvas não volte à normalidade como também a política energética não reaja de forma adequada a esse fato, na visão de Borges.

“No caso de se diagnosticar uma mudança estrutural do regime de chuvas, o governo precisa viabilizar uma transição para uma matriz energética menos dependente de São Pedro”, ele diz.

Essa é uma tarefa possível e que já devia estar sendo iniciada, pelo sim, pelo não, na visão de Borges. O governo poderia estimular a energia fotovoltaica – por exemplo, a adoção por prédios residenciais e comerciais – e a eólica, principalmente offshore, onde o potencial é enorme na costa do Nordeste.

Ele acrescenta que, mesmo que o padrão de chuvas tenha mudado, alguma reversão à média deve ocorrer, considerando que este ano é o que menos choveu nas áreas importantes em 90 anos.

“Mesmo que 2022 seja o segundo pior ano em 90, já significa alguma melhora”, observa o economista. Obviamente, uma política ambiental efetiva para combater queimadas também poderia ajudar.

Em resumo, na visão de Borges, as projeções de Souza Júnior e Giambiagi indicam, dada a ociosidade econômica na partida, que a próxima década pode ter um desempenho econômico, senão estelar, consideravelmente melhor do que o da que passou.

Os dois autores do trabalho frisam, claro, que a continuidade de reformas macro e microeconômicas e consolidação fiscal são fundamentais para isso. Borges, por sua vez, descarta a restrição energética como um empecilho – a não ser em prazo muito curto – para a melhora possível da economia na próxima década.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/9/2021, quarta-feira.