BTG Pactual, que acertou em março, prevê 0,75

Fernando Dantas

27 de abril de 2010 | 18h16

Na última reunião do Copom, o BTG Pactual, cujo departamento econômico é comandado por Eduardo Loyo, ex-diretor do BC, cravou que a Selic permaneceria em 8,75%, e acertou. Não parece ter sido essa a decisão que Loyo recomendaria, mas sim a que ele achou que ocorreria.

Agora, o BTG Pactual, o banco do jovem bilionário (se não é ‘bi’, é quase isso) André Esteves, está prevendo alta de 0,75 ponto porcentual da Selic na reunião que termina amanhã. Isso levaria a taxa a 9,5%.

O relatório do BTG que faz essa projeção é interessante. Com o nome de “Estratégia Dominante”, uma alusão à Teoria dos Jogos, ele constrói um dos mais bem montados “casos” em favor de 0,75 que eu tenho visto por aí. Como Loyo e sua turma acertaram que a Selic em março ficaria estacionada, o seu ponto de vista agora resiste melhor a eventuais críticas de que se trata de uma opinião com forte viés “falcão”.

No relatório, o BTG parte da constatação inicial de que os mercados estão mais pessimistas que o BC em relação à inflação futura. Assim, mesmo quando BC e mercado supõem igual crescimento da economia em 2010, a inflação do mercado para 2010 e 2011 é maior. O problema, porém, é que a projeção do mercado para o crescimento está subindo, já se instalando na faixa entre 6% e 7%. Assim, o descolamento entre a expectativa do mercado e a do BC tende a aumentar.

O passo seguinte da análise é dizer que 0,75 seria melhor tanto no caso de o BC ter razão, como no caso dela estar com o mercado. Se este último estiver certo, a inflação está decolando de fato, e um movimento forte de 0,75 faria todo o sentido. Mas se a visão do BC for a correta, provavelmente uma alta total de pouco menos de 2,5 pontos porcentuais seria suficiente para conter a inflação nesse ciclo de alta da Selic. Nesse caso, seria vantajoso fazê-la rápido, em três pulos de 0,75, até a reunião de julho – e o auge do período eleitoral, de agosto a outubro, seria poupado de altas da taxa básica. Na verdade, o BTG vê boas chances de um ajuste da Selic que vá além dos 2,5 pontos. A projeção atual do banco é de 2,25 em 2010 (três de 0,75, como descrito acima), e mais 1,5 em 2011. A Selic iria para 12,5% no ano que vem.

Para o BTG, outra vantagem do 0,75 é que ajuda a fazer com que o BC prove-se certo, e o mercado errado. Em outras palavras, uma sinalização mais forte reduz as expectativas inflacionárias e pode influenciar a trajetória real da inflação futura. Loyo e a equipe de economistas do banco não consideram que o BC aumentará em 0,75 para reparar a credibilidade supostamente arranhada pelo não aumento em março (junto com uma ata confusa), mas acrescentam que, de qualquer forma, uma pancadinha agora ajuda a eliminar dúvidas.

Analisando a ata da reunião de março em conjunto com Relatório de Inflação do mesmo mês, o BTG não acha que 0,75 seja inconsistente com a comunicação do BC. E, finalmente, o banco enxerga amplo apoio entre os analistas ao aumento de 0,75 (vê-se que eles não andam conversando com economistas desenvolvimentistas).

Bem, mas tudo isso foi antes do derretimento da avaliação de crédito da Grécia e de Portugal nesta terça-feira, com direito a rebaixamentos de rating. A ameaça de uma grande piora do cenário internacional era vista como um dos fatores que fizeram o BC alegar cautela e não iniciar a alta em março. Agora, esse perigo subiu alguns graus em intensidade, o que teoricamente reforçaria a ala pró-aumento de 0,50. Façam as suas apostas.

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