Bye-bye, deflação asiática

Fenômeno que provocou fortes pressões para baixo na inflação e nos juros do mundo rico pode estar chegando ao fim, o que é preocupante para o Brasil.

Fernando Dantas

27 Dezembro 2016 | 17h21

Em novembro, a inflação dos preços ao produtor da China (mês contra o mesmo mês do ano anterior) alcançou 3,3%, reforçando uma substancial reviravolta recente da tendência de deflação dos últimos anos. De março de 2012 até setembro de 2016, houve contínua deflação ao produtor na China, que chegou a um máximo de quase 6% ao final de 2015.

A deflação que atingiu os preços ao produtor na China e em outros países asiáticos por muitos anos foi uma força deflacionária global nos produtos manufaturados. Isto, por sua vez, é uma das causas do ambiente mundial de baixíssima inflação, ou deflação, e juros super-reduzidos, ou negativos, especialmente no mundo avançado.

A deflação ao produtor na China e outras partes da Ásia é geralmente atribuída à superprodução de manufaturados nestes países, e também ao baixo consumo da população chinesa (principalmente) e de outros países asiáticos.

Agora, surge a possibilidade de que essa força deflacionária esteja próxima do fim. Segundo estimativa de Livio Ribeiro, pesquisador do Ibre/FGV, mesmo quando se retiram do índice as commodities, incluindo petróleo e minério de ferro, que tiveram alta recentemente, a inflação ao produtor na China subiu 0,45% em setembro e 0,74% em outubro, após deflação desde o início de 2015. A mesma tendência de fim do período deflacionário pode ser observada nos Estados Unidos nos preços ao produtor, nos preços ao produtor de manufaturados (excluindo, portanto, as commodities em alta) e nos preços de importação e de importação de manufaturados.

Há duas interpretações principais sobre o esgotamento do impulso asiático de deflação dos manufaturados      . A primeira, pelo lado da demanda, seria de que, especialmente na China, há uma bolha de consumo provocada por política monetária superestimulativa, levada a cabo com a intenção de impedir uma desaceleração muito forte da locomotiva chinesa. De fato, as vendas de varejo têm crescido a um ritmo que é quase o dobro do PIB.

A outra explicação, pelo lado da oferta, seria de um ajuste na estrutura produtiva asiática, eliminando excessos de oferta em alguns setores chave, como, por exemplo, o siderúrgico e o eletrônico. Isto, por sua vez, faria parte do processo estrutural de mudança do modelo chinês, priorizando consumo doméstico e serviços, em detrimento de investimentos e exportações.

Se essa segunda hipótese fora a correta, como pensa Ribeiro, há significativas implicações para a economia global e para países emergentes como o Brasil. O fim da deflação chinesa estaria se combinando com o reaquecimento definitivo do mercado de trabalho americano pós-crise global e com o impulso de demanda que os mercados veem como contratado no âmbito da política econômica de Donald Trump assim que ele tomar posse em janeiro.

Dessa forma, o mundo rico, pelo menos no que concerne os Estados Unidos, estaria finalmente, depois de um longo período desinflacionário e de preocupações deflacionárias, ingressando em uma nova fase em que a inflação ressurgiria. Se isso for verdade, o aumento das taxas de juros longas americanas já ocorrido desde a eleição de Donald Trump seria apenas o prenúncio de uma tendência de aumento de custo do capital global muito mais pronunciado.

Nesse caso, a janela de tempo para o ajuste fiscal brasileiro provavelmente seria bem reduzida. A estratégia atual, ainda totalmente dependente da muito incerta aprovação da reforma da Previdência (sem grandes mutilações da proposta enviada ao Congresso), está baseada na resolução dos nós fiscais de médio e longo prazo, enquanto que no curto prazo a política fiscal superdeficitária vai sendo tocada com a ajuda de um ambiente internacional muito líquido e de baixos spreads de risco. Os sinais do fim da deflação ao produtor asiática, portanto, são mais uma dor de cabeça para a equipe econômica do atual governo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/12/16, segunda-feira.