Calma estranha e paralisia decisória

Os mortos pela Covid-19 no Brasil batem a marca de 100 mil com a sensação de que a população já está anestesiada em relação ao anúncio diário de cerca de 1000 falecimentos. Na economia e na política, reina também um marasmo em que decisões importantes são adiadas, enquanto ameaças à estabilidade nacional se acumulam no horizonte.

Fernando Dantas

10 de agosto de 2020 | 19h31

A marca de 100 mil mortos pela Covid-19 no Brasil foi ultrapassada com a sensação de que boa parte da população já está anestesiada ante o anúncio diário de que cerca de 1000 brasileiros morreram vítima do coronavírus (as mortes anunciadas não são as ocorridas em determinado dia dia, mas sim registradas).

Na verdade, desde o fim de maio, há uma impressionante estabilidade nos números de mortes pela Covid-19 anunciados diariamente pelo Ministério da Saúde (há também os números do consórcio de órgãos da imprensa, cujos resultados não são muito diferentes).

De 31 de maio até ontem, a média diária de mortos, segundo o Ministério da Saúde, foi de 1017. Nos sete dias até ontem, a média diária foi de 992 mortos.

Essa estabilidade vem ocorrendo com redução dos relatos na mídia de sistemas de saúde em colapso, como ocorreu em Manaus, por exemplo, no início da pandemia.

O coronavírus parece estar gradativamente migrando entre diferentes regiões do País, e dos maiores centros urbanos para os menores. Em algumas cidades, como Manaus e Rio de Janeiro, há sinais de que se possa ter atingido, ao menos em diversas partes do tecido urbano, a chamada imunidade de rebanho, ou comunitária.

Desde o início de junho, as quarentenas vêm sendo flexibilizadas nos diferentes Estados e municípios. Até agora, não houve sinal de repique significativo da Covid-19, incluindo as áreas intensamente afetadas no início da pandemia, como as já mencionadas Manaus e Rio de Janeiro.

Com a flexibilização já ocorrida até agora, a economia parece ter dado uma respirada, e os indicadores têm vindo melhores do que se supôs inicialmente. As projeções para o PIB de 2020 saíram da vizinhança de -10% para a de -5%.

É verdade que ainda há dúvidas sérias sobre o combalido setor de serviços (o mais afetado pelo isolamento social) e sobre o mercado de trabalho. Também se teme o efeito na economia do fim dos programas do governo relacionados à Covid-19, em especial do auxílio emergencial com a sua injeção de R$ 50 bilhões por mês.

De qualquer forma, no momento, uma estranha estabilidade parece ter se seguido aos momentos mais abertamente dramáticos da pandemia, em abril e maio. A estranheza é justamente pelo fato de que a morte de mil brasileiros por dia pelo coronavírus deveria manter a sensação de calamidade na sociedade brasileira, mas isso não parece estar acontecendo.

As pesquisas de opinião mostram, por exemplo, que a queda de popularidade de Jair Bolsonaro foi estancada, e houve até alguma recuperação. Contribui para isso que o presidente tenha parado nos últimos tempos de provocar polêmicas desnecessárias, talvez ressabiado com os respingos cada vez mais próximos de si mesmo do escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro.

Outro fator a contribuir para certo marasmo, mesmo diante da ainda gravíssima crise sanitária e econômica, é a gigantesca liquidez internacional bombeada pelas autoridades econômicas dos países ricos, que contribui para reduzir a percepção de risco no mundo todo.

No Brasil, essa fase de relativa calmaria também coincide com um momento de profunda indefinição econômica e política.

A impressão que se tem é que o alívio temporário da fase mais assustadora da pandemia está sendo usado pelos tomadores de decisão para relaxar e tocar com a barriga, e não para definir rumos de uma forma menos reativa (em momentos agudos de crise, não há como postergar decisões).

Bolsonaro aproximou-se do Centrão recentemente, mais para se garantir contra tentativas de impeachment do que para dar governabilidade a um projeto de gestão do País.

A concessão à “velha política” não parece ter rendido ao presidente melhores chances de evitar derrotas no Congresso, como ficou claro na votação do novo Fundeb e na fragilidade dos vetos de Bolsonaro, que são vistos como facilmente derrubáveis.

Assim, não há propriamente uma agenda política do governo, embora ocasionalmente uma medida ou outra, como a tímida e limitada reforma tributária de Paulo Guedes, seja enviada ao Congresso.

Os rumos do País, portanto, parecem estar nas mãos do “Deus dará” das articulações entre os lobbies e o Congresso, com algum pequeno freio derivado de lideranças parlamentares menos irresponsáveis ou o nariz torcido da equipe econômica para essa ou aquela medida.

É muito pouco diante do “eterno retorno” da vontade de gastar que dá a tônica da democracia brasileira.

Com a pandemia, o déficit e a dívida pública explodiram, e até agora não há nenhuma certeza sobre como o auxílio emergencial – forte candidato a programa social mais caro e mal focado de todos os tempos – será transformado no Renda Brasil, um Bolsa-Família com anabolizantes com o qual Bolsonaro pretende conquistar as classes D e E.

É uma operação extremamente delicada do ponto de vista político e fiscal.

Um gasto enorme já está sendo feito, e a ideia é substituí-lo por outro bem menor, mas ainda assim que seja um upgrade em relação ao status quo da política social pré-pandemia.

A torneira aberta no máximo terá de ser bastante fechada, até o ponto em que o jato seja fiscalmente digerível. O problema é que, como na definição do valor de R$ 600 para o auxílio emergencial, há o risco de um novo “leilão” entre o Executivo e o Legislativo para ver quem é mais “bonzinho” com as dezenas de milhões de brasileiros cuja vida material melhorou com o auxílio-emergencial.

Conhecendo o Brasil, as chances de que a torneira seja insuficientemente fechada não são nada triviais. E aí não haverá teto de gasto ou fervor fiscal da equipe econômica que evitem uma nova derrocada do regime macroeconômico brasileiro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/8/2020, segunda-feira.