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Câmara farejou sangue

Atuação cada vez mais insensata de Bolsonaro enfraquece presidente junto à elite e atiça a tentação do Legislativo de confrontar o presidente e quem sabe até derrubá-lo mais à frente. A superpauta bomba da ajuda da União aos Estados aprovada pela Câmara pode ser uma das primeiras salvas desse combate sangrento entre os Poderes.

Fernando Dantas

15 de abril de 2020 | 19h56

O secretário de Saúde, Wanderson Oliveira, pediu demissão hoje, no que pode ser um prólogo para a troca do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Oliveira tornou-se conhecido da população recentemente, participando das coletivas sobre o coronavírus. Parecia extremamente focado no trabalho, com grande conhecimento da situação e tomando as medidas possíveis.

Que tipo de governante induz a saída de um quadro que está fazendo um bom trabalho em meio a uma crise que coloca em risco a vida de milhares de pessoas?

Essa é uma pergunta que vai e vem, que não se consegue descartar. Em recente editorial, o prestigiado Washington Post classificou Jair Bolsonaro como o pior líder global a lidar com o coronavírus. O que ganha o presidente do Brasil com isso?

Se essa é uma indagação praticamente impossível de responder, pois pressupõe devassar escuros recantos da psique presidencial, é possível, entretanto, delinear padrões no enredo trágico para o qual Bolsonaro se autoescalou como protagonista.

No início do segundo ano do seu mandato, pré coronavírus, o presidente intensificou a beligerância contra inimigos reais e imaginários, com destaque para o Poder Legislativo. Em especial, a Câmara presidida por Rodrigo Maia, o qual se tornou uma espécie de vilão número um para o “gabinete do ódio” e as hordas bolsonaristas nas redes sociais.

Sobreveio a pandemia. Em diversos países do mundo, o efeito foi o de mitigar tensões internas e criar um clima propício a uma trégua nacional diante do inimigo comum. Como resultado, a popularidade de diversos chefes de Estado aumentou, em alguns casos fortemente.

Mas Bolsonaro não estava com nenhum ânimo apaziguador. O presidente se aferrou ao papel de sabotador principal do isolamento social horizontal. Isso parece decorrer menos da preocupação com a economia transmitida de início por Paulo Guedes – que, ainda que lentamente, foi ajustando sua postura ao consenso mundial sobre como lidar com epidemia – e mais como forma de Bolsonaro dar prosseguimento a seus embates crescentemente virulentos contra governadores, Parlamento, mídia etc.

Com essa chocante atitude presidencial, uma certa ficha caiu entre aqueles que, independentemente de em quem votaram no primeiro ou segundo turno, apoiavam ou toleravam Bolsonaro por uma série de razões: ter sido a linha de defesa contra o PT, ter adotado o liberalismo de Paulo Guedes como diretriz (oficial, pelo menos) da política econômica, e ter no ministério nomes vistos com competentes e responsáveis, como Tereza Cristina, ministra da Agricultura, Tarcísio Gomes de Freitas, ministro da Infraestrutura, e o próprio Mandetta, cujo prestígio subiu com sua atuação nas últimas semanas na crise da Covid-19.

Subitamente, o rei ficou nu, e, mesmo em setores liberais e conservadores, sobretudo da elite, ficou claro que Bolsonaro é tão desequilibrado que qualquer conjectura otimista sobre o seu governo até o fim de 2022 é um ato de extremada fé.

Ficou claro que o afã de Bolsonaro para tirar Mandetta, que está sendo muito bem avaliado pela população por sua atuação na pandemia, é um ato pueril e quase insano de uma criança dona da bola que decide encerrar o jogo porque seu time está ganhando, mas ela ainda não fez nenhum gol.

Além disso, a narrativa mais credenciada no momento sobre a pandemia no Brasil é de que esta é explosiva, os números oficiais estão completamente defasados e o número de mortes vai subir assustadoramente.

Assim, a população em geral também vai se voltar em massa contra Bolsonaro no momento em que uma boa parte dela tiver perdido um ente querido para a doença que o presidente chamou de “resfriadinho”.

A Câmara e Rodrigo Maia parecem ter farejado sangue. O pacote de ajuda aos Estados transformou-se, pelo voto da esmagadora maioria dos deputados, num torpedo fiscal tão acintoso que um veterano participante do olho do furacão do impeachment de Dilma comentou que “o espírito de 2015 [fase das pautas bomba contra a ex-presidente] parece ter voltado com força à Brasília”.

Até o final do ano, não é exagerado pensar num cenário com dezenas de milhares de  mortos, colapso do sistema de saúde, muitos milhões de desempregados a mais, quadro caótico nas contas públicas e um governo inteiramente desarticulado politicamente para a gigantesca tarefa de coordenar o retorno a alguma normalidade socioeconômica e distribuir a conta fiscal entre os diversos grupos da sociedade.

Dessa balbúrdia pode sair um presidente tão fraco que estimule a propensão do seu inimigo jurado, o Legislativo, a tentar derrubá-lo. Nesse sentido, as pautas bombas da Câmara e de Maia (o Senado parece mais cauteloso) podem ser as primeiras salvas de um combate sangrento entre Poderes, em meio a uma crise sanitária e econômica sem precedentes.

Bolsonaro, entretanto, tem um possível trunfo à sua disposição. A real situação da pandemia no Brasil, dado os problemas com os números, é inteiramente incerta. As estatísticas oficiais até agora, na verdade, não indicam explosões como as ocorridas em Espanha, Itália, França e Estados Unidos.

Se o primeiro grande pico da Covid-19 no Brasil for bem mais brando do que se supõe (apenas uma hipótese), o presidente poderá vender mais facilmente a narrativa de que alertou para exageros – falsa, é claro, porque, se o pico não for tão extremo, será justamente por causa da quarentena que ele tanto atacou. De qualquer forma, nesse cenário Bolsonaro pode conseguir proteger melhor a sua popularidade. Neste caso, Maia talvez venha a constatar que avançou uma quantidade de casas nesse jogo de xadrez maior do que seria prudente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/4/2020, quarta-feira.

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