Câmbio não anima AEB

Mesmo com a forte desvalorização, associação de exportadores não vê melhoras expressivas das exportações em 2015 e 2016.

Fernando Dantas

11 de agosto de 2015 | 12h52

Segundo a projeção da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), o Brasil deve exportar produtos manufaturados em 2015 num total de US$ 72,9 bilhões. Este valor representa uma queda de 9% em relação aos US$ 80,2 bilhões do ano passado, apesar de o câmbio real médio mensal (pela série do Banco Central) ter se desvalorizado em 10,6% entre 2014 e 2015. E este cálculo vai até junho, quando o câmbio fechou a R$ 3,11, não contabilizando, portanto, a última rodada de desvalorização, que levou o dólar a superar R$ 3,5.

A projeção de exportação de manufaturados da AEB é inferior ao nível de 2006, quando as vendas atingiram US$ 75 bilhões, mesmo com o câmbio real de hoje sendo 3,4% mais desvalorizado do que o daquele ano.

Se a análise de José Augusto de Castro, presidente da AEB, estiver correta, a almejada “saída pelo lado externo” da atual recessão será mais difícil do que imaginam os otimistas, mesmo levando em consideração a grande desvalorização cambial em curso.

A forte desvalorização das últimas semanas não fez com que Castro mudasse suas últimas projeções para a balança comercial de 2015: exportações de US$ 191,3 bilhões, com queda de 15%; importações de US$ 183,3 bilhões, com queda de 20%; e superávit comercial de US$ 8 bilhões, vindo de um déficit de US$ 3,9 bilhões em 2014. Para 2016, caso o novo patamar do real seja mantido, ele acha que pode haver alguma melhora das exportações, mas bem modesta.

O problema básico, para ele, é de mercados compradores e de competição externa. Cerca de 60% da pauta exportadora brasileira hoje é de commodities, para as quais a alta do dólar aumenta a rentabilidade, mas não as receitas, prejudicadas pela queda dos preços das matérias-primas.

Em relação às exportações de manufaturas, metade vai para países latino-americanos, que estão sofrendo com a queda de preços das commodities e reduzindo importações. A outra metade divide-se entre Ásia e Europa, de um lado, e Estados Unidos, de outro. Castro aponta que a Ásia é marginal como mercado para manufaturados brasileiros e, no caso da Europa, há o fato de que o euro também está se desvalorizando ante o dólar. Isto não só dificulta exportar para a região, mas significa também mais competição no mercado americano.

O mercado dos Estados Unidos, finalmente, é aquele em que a desvalorização cambial pode fazer diferença para os manufaturados brasileiros. Mas o presidente da AEB nota de início que este é um mercado negligenciado na última década – a parcela das exportações brasileiras que vão para os Estados Unidos caiu de 25% em 2013 para cerca de 12% atualmente. Adicionalmente, como os Estados Unidos são praticamente a única grande economia rica que está se recuperando mais vigorosamente, e o dólar está se valorizando em relação a quase todas as moedas, é um mercado que está atraindo uma feroz competição global.

Até junho de 2015, as exportações de manufaturas brasileiras para os Estados Unidos cresceram 5,3% em relação ao mesmo período de 2014, mas o total das exportações nacionais para o mercado americano ainda caía 9%. Este é outro problema, segundo Castro: mesmo num mercado tradicional para as manufaturas brasileiras como o americano, hoje o papel das commodities, inclusive petróleo, é bem maior.

Ele lembra ainda que a forte desvalorização do real chama a atenção dos compradores externos, que querem “dividir” o ganho com o exportador brasileiro, e que um preço competitivo não significa uma perspectiva de vendas imediatas. É preciso reconquistar o comprador externo, e o momento turbulento do País em termos econômicos, sociais e políticos cria alguma insegurança no importador.

E, finalmente, há contratos com exportadores de outros países que normalmente têm que expirar antes que o importador se decida a substituí-los por um fornecedor brasileiro. Desta forma, a desvalorização é uma pré-condição para o início de uma melhora nas exportações de manufaturados e na balança comercial, mas o caminho pela frente ainda é muito longo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast 

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/8/15, sexta-feira.

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