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Câmbio pra cima, inflação projetada para baixo

Mesmo com a desvalorização do real e um IPCA de fevereiro no teto das expectativas de mercado, projeções de inflação em 2020 permanecem em queda.

Fernando Dantas

11 de março de 2020 | 20h26

É algo inusitado no Brasil. Com o dólar disparando, e um IPCA de fevereiro que veio no teto do intervalo do Projeções Broadcast, algumas instituições estão revisando suas expectativas de inflação em 2020… para baixo.

O IPCA de 0,25% em fevereiro, acima da mediana de 0,15% das projeções, deveu-se em grande parte a um salto no preço dos produtos de higiene pessoal, no qual analistas veem mais alguma questão de metodologia de coleta (o item tem oscilado muito) do que qualquer sinal de pressão inflacionária.

No mais, o índice veio dentro das expectativas, muito favoráveis, do mercado.

“A inflação está muito controlada e não vejo repasse cambial”, diz Carlos Thadeu de Freitas Filho, economista-chefe da Ativa Investimentos.

O grande fator a ser considerado a partir de agora, claro, é o impacto do coronavírus e de suas decorrências, como a grande queda adicional do preço do petróleo na esteira do imbróglio envolvendo Rússia e Arábia Saudita.

Pelo canal do risco, há a desvalorização do real, com potencial inflacionário. Mas a curva de juros também empinou, significando taxas significativamente mais altas quando se sai do âmbito de prazos muito curtos. Esse é um fator negativo para as condições financeiras, podendo inibir a atividade e, portanto, criar ainda mais pressão desinflacionária.

E há os efeitos específicos das medidas contra a disseminação do coronavírus, que afetam as cadeias produtivas globais. Aqui também existem fatores potencialmente inflacionários e desinflacionários, que têm que ser pesados para se tentar avaliar o efeito líquido.

A paralisação de linhas de produção manufatureira já criou falta de produtos e insumos que pode causar estrangulamento na oferta, o que poderia ser inflacionário.

Por outro lado, há uma enorme pancada na demanda dos serviços (que são a maior parte das economias modernas), com paralisação e cancelamento de viagens aéreas, de eventos esportivos, do setor de entretenimento etc., com imensos efeitos em cadeia sobre toda uma enorme gama de serviços, como hospedagem, alimentação fora de casa, etc.

Evidentemente, esse efeito não se limita aos serviços. Basta pensar em todas as compras de produtos que deixarão de ser feitas por turistas que deixarão de viajar. Pode haver, por outro lado, alta na demanda de alguns serviços, como atendimento médico, mas evidentemente o saldo geral deverá ser poderosamente contracionista.

Na visão de Freitas Filho, é mais provável que o efeito final do coronavírus para o Brasil seja desinflacionário. O economista tem uma projeção de IPCA para 2020 de 2,58% (bastante baixa, comparada à atual média do mercado) e diz que ainda não estão contabilizados os potenciais impactos desinflacionários do coronavírus.

Flávio Serrano, economista-chefe do Haitong Bank, projeta 3,2% de IPCA para o ano, mas com “viés de baixa” ligado principalmente ao preço da gasolina. O dólar disparou, mas o barril despencou, e a resultante é para baixo.

Se o petróleo se mantiver próximo aos baixos níveis atuais ao longo do ano, Serrano vê chances de o IPCA cair abaixo de 3%. Mas ele acha cedo para se projetar um barril tão barato por tanto tempo.

Segundo o economista, a pernada de desvalorização do real mais recente, de cerca de 13%, teria um potencial de “pass-through” de 0,6 ponto porcentual na inflação de 2020, mas o hiato do produto (ociosidade na economia), que se mantém muito alto, tende a erodir esta transmissão inflacionária do câmbio.

Por outro lado, nota Serrano, as commodities agrícolas estão menos afetadas pelo movimento de queda (do que as minerais e o petróleo), e nesse caso a disparada do dólar tem levado a uma resultante de alta – o que pode ter algum impacto na inflação.

No frigir dos ovos, o economista do Haitong vê um Banco Central mais preocupado em evitar a combinação de queda adicional da inflação e da atividade. Ele prevê um corte de 0,25 ponto porcentual da Selic na reunião do Copom da semana que vem, e mais 0,25 pp na reunião de maio.

A Selic terminaria o ano em 3,75%, mas o BC continuaria sensível ao cenário e poderia refazer os planos. Já Freitas Filho, da Ativa, vê uma taxa básica caindo para 3%, nível em que deve estar no final de 2020.

O Haitong projeta 2% de crescimento em 2020, mas pode ser menos se a paulada do coronavírus na atividade do segundo trimestre for muito intensa. Freitas Filho vê chances de expansão do PIB no ano mais próxima de 1,5% do que de 2%.

O quadro é sombrio, portanto, mas pelo menos as expectativas de inflação ancoradas abrem espaço para quedas adicionais na Selic, que podem ajudar.

Economicamente, o trem continua em cima dos trilhos, embora em velocidade lamentável. A questão é saber se o baixo crescimento e seus impactos no mercado de trabalho e no humor na população poderão descarrilar a política (e aí com retroalimentação entre esta e a economia).

Bolsonaro está sacudindo o barco político de todas as formas que pode, contribuindo para um eventual desfecho mais dramático da crise dos impactos econômicos do coronavírus na sociedade brasileira.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/3/20, quarta-feira.

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