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Canais de impacto

Bráulio Borges, do Ibre e LCA, analisa as diversas formas como a epidemia do coronavírus atinge as economias, em particular a brasileira.

Fernando Dantas

17 de março de 2020 | 12h55

Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, organizou informações e números sobre a epidemia do coronavírus, e seus prováveis impactos na economia global.

Embora a letalidade do COVID-19 seja inferior à da SARS – o surto de 2003, em que o indicador atingiu 10% – o contágio pelo novo coronavírus tende a ser maior porque pessoas assintomáticas o transmitem. Adicionalmente, a taxa de letalidade da infecção pelo COVID-19, de cerca de 3,4% (este número varia conforme a metodologia adotada) é muito superior à da gripe sazonal (0,1%).

A letalidade do coronavírus varia por faixa etária, poupando os mais jovens: é de 0,2% entre pessoas de dez a 19 anos e chega a 14,8% para aqueles com mais de 80. Entre os países, no atual surto, a letalidade tem variado muito, saindo de 1% no caso da Coreia do Sul para 7% no da Itália.

Essa variação pode indicar que a Coreia conseguiu proteger melhor os grupos mais idosos da contaminação. Se o COVID-19 em determinado país atinge relativamente mais os mais velhos, a letalidade é maior não só pela maior vulnerabilidade desta faixa etária, mas também porque o número de casos graves pode ultrapassar a capacidade de atendimento do sistema médico (caso italiano).

Na visão de Borges, o impacto de primeira ordem da epidemia do COVID-19 está ligado à tentativa de “achatar a curva” de crescimento dos casos, de tal forma a não ultrapassar a capacidade de atendimento dos sistemas médicos nacionais, o que leva à paralisação de atividades produtivas. Isto afetou a oferta de mão de obra e, consequentemente, os suprimentos das cadeias globais de valor, que estão muito concentradas na Ásia, primeiro epicentro da epidemia.

O impacto de segunda ordem é o choque negativo de demanda, especialmente nos setores mais dependentes de turismo e que são afetados pelo “distanciamento social”, política de evitar ao máximo aglomerações e proximidade física entre as pessoas.

Outro efeito de segunda ordem é o pânico nos mercados financeiros, com a “fuga para a qualidade” – capitais fluindo para “portos seguros” como títulos do Tesouro americano –, que eleva prêmios de riscos de países emergentes vulneráveis como o Brasil. Esse efeito dificulta (mas não impede) o uso de políticas monetária e fiscal contracíclicas nos países por ele atingidos.

Borges também vê efeitos de terceira ordem, como o crescimento do sentimento anti-União Europeia na Itália, que foi fortemente atingida e sente que seus parceiros do bloco não devam o apoio devido. Por outro lado, caso se confirmem as previsões de que a epidemia pode ser muito intensa em países governados por populistas, como Trump e Bolsonaro, que minimizaram o risco, o coronavírus poderia reduzir o apelo eleitoral do extremismo de direita – mas a um custo altíssimo para essas sociedades.

No Brasil, em particular, Bolsonaro levou as últimas consequências a atitude de descaso com a ciência que caracteriza o seu governo ao comparecer à manifestação de domingo (15/3) e interagir fisicamente com mais de 200 pessoas.

Enquanto isso, com a possível exceção do Banco Central, a equipe econômica ainda parece perdida e aturdida em relação a como reagir ao superchoque do COVID-19. Mesmo com sinais de que medidas sensatas já estão sendo pensadas, como aumentar o déficit na meta de primário, a sensação é de que Paulo Guedes e seu time estão “atrás da curva” em relação à extrema gravidade da crise.

Não há que se esperar um mínimo de competência, responsabilidade e decência por parte da operação política do governo Bolsonaro, porque o presidente vem demonstrando desde o início do seu mandato que estas são qualidades de que não dispõe.

A equipe econômica, entretanto, assim como o ministério da Saúde, comandado por Luiz Henrique Mandetta, tem quadros respeitáveis e que poderiam articular uma reação decente do Brasil à crise do coronavírus.

O País está nas mãos da pequena minoria de participantes do governo Bolsonaro que mantém alguma lucidez.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Uma primeira versão desta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/3/2020, segunda-feira.

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