Candidatura para quê?

Ainda não estão claros os benefícios da possível candidatura de Henrique Meirelles à presidência.

Fernando Dantas

19 Dezembro 2017 | 16h38

Uma candidatura competitiva de Henrique Meirelles à presidência da República em 2018 seria o sonho dourado não só do mercado financeiro, mas de todos que acreditam que a responsabilidade fiscal e monetária, a economia de mercado e uma política econômica liberal são o melhor caminho para o desenvolvimento do País.

A grande questão, porém, é a de saber se uma eventual candidatura de Meirelles no ano que vem tem alguma chance de se tornar competitiva.

Numa primeira análise, com as informações disponíveis hoje, parece uma possibilidade muito remota.

Meirelles tem papel de destaque em um governo que atingiu os níveis mais baixos de popularidade desde a redemocratização – e que nestes patamares permanece. É possível que a recuperação da economia, relativamente encomendada para 2018, tire a popularidade de Temer do fundo do poço, mas não há analista que veja o atual presidente terminando seu mandato nos braços do povo e como um apoiador disputado de candidaturas presidenciais.

Mesmo se a retomada seguir seu curso sem sobressaltos, as projeções de desemprego no final de 2018, e mais ainda durante os meses de campanha, ainda apontam níveis bastante elevados, provavelmente de dois dígitos. O processo de recuperação da renda e de desendividamento das famílias prossegue em seu ritmo gradual, que nada indica ser suficiente para gerar um boom de consumo e felicidade em 2018.

E há ainda toda a desmoralização política do atual governo por conta dos escândalos de corrupção. Meirelles não é um político da velha guarda nem está implicado em nada, mas uma coisa é o ministro e outra o candidato.

Se ele vier de fato a se candidatar e se suas intenções de voto crescerem, é certo que os adversários vão explorar a fundo o fato de que foi presidente do conselho de administração da J&F, controladora da JBS, e presidente do Banco Original, do mesmo grupo. O ministro foi regiamente pago para orientar a construção da plataforma digital do Banco Original, o que pode estar dentro dos padrões de remuneração de alguém com o seu currículo de banqueiro internacional, mas que certamente pode também ser explorado maldosamente pelos marqueteiros dos rivais.

E, finalmente, há o fato de que Meirelles, mesmo com toda a sua exposição pública como principal ministro de Temer, até agora não saiu de níveis muito reduzidos de intenções de votos em pesquisas de opinião que testam seu nome, na casa de 1% a 2%.

O ministro não é neófito na política eleitoral, tendo sido eleito deputado federal em Goiás em 2002 com o maior número de votos (183 mil) do Estado. O convite para ser presidente do Banco Central de Lula, porém, desviou-o do Congresso para a chefia da autoridade monetária. Evidentemente, ganhar uma eleição presidencial é algo muito diferente de se eleger deputado federal em Goiás numa campanha em que sua condição financeira pessoal lhe permitiu aportar recursos que, para as dimensões do pleito, eram abundantes.

Quem conhece Meirelles sabe que sua postura afirmativa e seu linguajar apurado, capazes de incutir segurança em investidores internacionais, são muito diferentes da linguagem simples e espontânea que tipicamente é vista como a melhor forma de um político comunicar-se com as grandes massas populares no Brasil.

É possível que Meirelles e o próprio governo Temer guardem trunfos ainda desconhecidos que dariam competitividade a uma eventual candidatura do atual ministro da Fazenda. Mas também é possível que não. Neste segundo caso, uma boa indagação seria sobre as motivações de Meirelles para alimentar a possibilidade da sua candidatura.

É possível enxergar alguns senões. Como observou recentemente Arminio Fraga, ao se candidatar Meirelles diminui as chances de atuar como uma espécie de mediador entre os candidatos favoritos durante a campanha, e o vencedor depois dela, de um lado, e a atual política econômica racional e responsável, do outro. Esta é uma função, da qual o próprio Arminio se desincumbiu em 2002 (e que Meirelles está em tese até mais aparelhado politicamente para desempenhar, por sua proximidade com Lula), que pode se revelar fundamental se 2018 se tornar um ano turbulento.

Outro problema da candidatura Meirelles é o de dividir ainda mais o campo do centro nas eleições de 2018, o que aumenta a chance de um segundo turno entre candidatos com discurso mais radical.

Já as vantagens da candidatura – fora imaginar que, numa surpresa de enormes dimensões, Meirelles se eleja em 2018 – estão menos claras por enquanto. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/12/17, sexta-feira.