Canuto e as três transições

Diretor executivo do FMI vê dificuldades no processo de mudança de modelo econômico na China e na adaptação do mundo à queda do preço das commodities.

Fernando Dantas

15 de janeiro de 2016 | 12h05

As projeções sobre a economia global pioraram “um pouquinho” em relação à reunião anual conjunta do FMI e do Banco Mundial realizada em Lima, no Peru, em outubro, mas sem que tenha surgido “um novo horizonte de preocupação”. A avaliação é de Otaviano Canuto, diretor-executivo do FMI para o Brasil e outros dez países.

“As chamadas transições de 2016 estão, de maneira geral, se revelando um pouco mais difíceis do que o previsto, o que trouxe dúvidas e alta do risco e da volatilidade”, diz Canuto.

Ele identifica três transições principais.

A primeira é a transição chinesa para um novo padrão de crescimento, mais lento, porém mais sólido, menos dependente dos mercados externos e assentado no consumo e nos serviços, no lugar dos investimentos e das manufaturas. A segunda transição é a adaptação da economia global à fase de baixa do superciclo de preços das commodities. E a terceira, finalmente, é a gradual normalização da política monetária dos Estados Unidos, depois de anos de juro de praticamente zero e programas de expansão de liquidez.

Na China, a transição entrou numa fase de trepidação com a queda nas bolsas, as saídas de capitais e a desvalorização do renminbi. Canuto nota que dois setores particularmente afetados pela mudança de modelo na China, a indústria manufatureira e a intermediação financeira (neste caso, por um enredo complexo que junta excessos imobiliários, finanças de governos locais e o “shadow banking”), estão super-representados nos ativos chineses, em termos de ações e títulos de dívida. Isto, por sua vez, “magnifica” os problemas, o que se soma à forma desajeitada com que as autoridades econômicas vêm lidando com a queda da bolsa, levantando suspeitas sobre sua competência para guiar a transição econômica.

No lado cambial, o diretor do FMI vê um problema de comunicação e compreensão. A desvalorização do renminbi em relação ao dólar deriva do fato de que a nova sistemática de câmbio da China, que busca um grau maior de flutuação, tem como parâmetro uma cesta de moedas. O dólar tem se valorizado em relação a essa cesta, e, assim, é natural que suba ante a moeda chinesa, sem que isto signifique que o país esteja ensaiando uma política de desvalorização competitiva. Segundo Canuto, o Banco do Povo da China (BC) colocou recentemente uma nota sobre essa questão no seu site.

De qualquer forma, o aumento de preocupação de que a desaceleração chinesa acabe sendo mais intensa e desgovernada do que o previsto afetou a segunda transição, relativa às commodities, que estão caindo mais do que se antecipara.

Isto, por sua vez, afeta uma parcela expressiva do mundo emergente, incluindo o Brasil. O economista observa que havia certa crença de que os emergentes pudessem reverter um processo de desaceleração que já tem cinco anos, mas não há sinais de que isto esteja acontecendo.

Por sua vez, o esperado efeito positivo em termos de demanda da queda do preço do petróleo, com transferência de renda de países poupadores para países de maior tendência ao consumo, também está decepcionando. Adicionalmente, a queda abrupta do petróleo criou riscos financeiros inesperados, com exposições no setor financeiro americano à (agora) ameaçada indústria de petróleo e gás de xisto e o impacto de problemas nas grandes petrolíferas, como a Petrobrás. Também se percebeu que a economia global está mais dependente do que se pensava dos investimentos – hoje em recuo – de parcela das empresas produtoras de commodities.

Ele cita ainda riscos geopolíticos e aqueles ligados ao endividamento em tempos mais benignos de empresas não financeiras, diante dos fortes movimentos cambiais, da piora na percepção de risco e do aperto das condições financeiras.

Finalmente, Canuto considera que a terceira transição, relativa à política monetária americana, é a que está indo melhor. Ainda assim, o investimento privado nos Estados Unidos ainda está desapontando e há toda a complexa discussão sobre a possibilidade de uma “estagnação secular”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 14/1/16, quinta-feira.

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