Carne salgada

Alta forte da carne, consequência da gripe suína chinesa, se soma à desvalorização do câmbio, liberação do reajuste dos jogos lotéricos, leve melhora no consumo e provável bandeira amarela em dezembro para pressionar inflação no final do ano (mas IPCA permanece confortavelmente na meta).

Fernando Dantas

15 de novembro de 2019 | 20h50

A inflação brasileira ainda permanece tranquilamente abaixo da meta, mas o cenário ficou um pouco menos folgado em função de diversos fatores: a desvalorização do câmbio, sinais um pouco mais animados de retomada de consumo, a possibilidade de bandeira amarela no setor elétrico em dezembro (afetando o IPCA de 2019) e, especialmente, a alta das carnes, com destaque agora para a bovina.

A principal causa para a elevação dos preços das carnes são os efeitos, no setor global de proteínas animais, da gripe suína na China, que levou a uma enorme redução da produção chinesa de carne de porco, superconsumida no país asiático.

Como explica Carlos Thadeu de Freitas Filho, economista-chefe da Ativa Investimentos, a China (junto com Honk Kong) está pagando um ágio sobre o preço externo da carne bovina brasileira. Segundo uma comparação recente, o preço da arroba de carne bovina no mercado doméstico era de R$ 195, no externo de R$ 280, e a China pagava R$ 318.

Com essa prática de pagar ágio, a China passou a absorver quantidades crescentes da exportação de carne bovina do Brasil. Em meados de 2016, 20% da exportação de carne do Brasil ia para a China. Hoje, a proporção é de quase 55%.

Segundo Thadeu, 2019 já não foi um ano favorável para a carne bovina, independentemente da China. Houve muito abate de matrizes nos últimos anos, e, em 2019, vacas têm sido poupadas para recomposição de matrizes. Adicionalmente, há sinais de melhora no consumo, inclusive pelo efeito da liberação do FGTS.

O aperto mais agudo da demanda de carne pela China coincidiu com uma época sazonalmente de produção menor no Brasil, muito concentrada em gado confinado, já que o período de seca de maio a setembro/outubro deixa os pastos secos.

O quilograma da carne bovina no atacado já subiu 23% desde julho (até ontem), saindo de R$ 10,40 para R$ 12,80. Mas, segundo o economista, o preço da arroba no mercado futuro já implica um preço do kg de R$ 13,70 no atacado. Considerando um repasse aproximado de 50% para o varejo, a alta até o final do ano para o consumidor seria de 15%, correspondendo a um impacto de 0,4 ponto porcentual (pp) no IPCA deste ano.

Porém, para o final de novembro, o mercado futuro indica uma arroba de R$ 200, o que elevaria a alta no atacado para 39%, e o impacto no IPCA para 0,51 pp, de acordo com Thadeu. E isso sem somar o efeito em outras proteínas com relevância para o IPCA, como frango e ovos, que também devem subir.

Com isso, a previsão de IPCA em 2019 do economista, que já esteve próxima de 3%, subiu para 3,56% (ainda bem abaixo da meta de 4,25%). Para 2020, a previsão é de 3,45% (também abaixo da meta de 4%).

Outros fatores que elevaram a projeção de Thadeu para o IPCA de 2019 foram o câmbio, o reajuste dos jogos lotéricos da Caixa (com impacto de 0,14 pp) e a expectativa de que dezembro tenha bandeira amarela, e não verde, na energia elétrica.

O economista nota que já há analistas que cogitam que a bandeira seja vermelha no próximo mês, o que elevaria o IPCA no ano para a faixa de 3,75%/3,80%. No caso da carne, um pedaço do impacto da alta vai para a inflação de 2020.

Renato Salinas, economista do Banco Votorantim, também está alerta para o aumento do preço das carnes. Mas ele tem dúvida sobre quanto do aumento do atacado vai ser repassado ao varejo, dado que o desemprego permanece elevado e a renda ainda trava o consumo. Sua estimativa é de que “pelo menos 20% a 30%” da alta do atacado chegue ao consumidor.

Uma questão é saber se essa pressão no IPCA neste final de ano e início de 2020 interfere com o plano de jogo da política monetária do Banco Central, que já vem dando sinais de cautela nas últimas comunicações.

A carne e os outros impactos descritos acima são choques de oferta, em relação aos quais a convenção do sistema de metas de inflação é acomodar a alta e combater apenas os efeitos secundários, isto é, o eventual repasse para outros produtos.

Salinas, do Votorantim, diz que o banco projeta uma Selic no final do ciclo de baixa de 4,25%, mas que chegou a prever 4% anteriormente. Fatores como depreciação do câmbio, melhora da atividade e alta das carnes foram responsáveis pelo ajuste.

Para Thadeu, o BC leva a Selic a 4,5% em dezembro, mas só retoma os cortes no segundo trimestre, e a partir daí chega a 3,5%. Porém, na sua visão, isso corresponde a espichar mais no tempo reduções que seriam feitas mais rapidamente se não fosse esse coquetel altista de final de ano. O economista projeta um primeiro trimestre de 2020 com pressão inflacionária nas carnes, mas o efeito tende a se dissipar a partir do segundo trimestre.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast tem 14/11/19, quinta-feira.