Cavalos-de-pau nos EUA e Europa

Nas maiores economias do mundo, bancos centrais fazem movimentos bruscos na direção de maior relaxamento monetário.

Fernando Dantas

13 de março de 2019 | 13h13

Depois do Fed, BC americano, no final de janeiro, agora foi a vez do Banco Central Europeu (BCE) dar o seu cavalo de pau no sentido de maior frouxidão monetária, com anúncio e sinais transmitidos na quinta-feira, 7/3, por Mario Draghi, presidente da instituição. As decisões foram acompanhadas por uma drástica redução da projeção do BCE para o crescimento da zona do euro este ano, que caiu de 1,7% para 1,1%. As projeções de inflação também caíram, se situando abaixo da meta de 2% até 2021.

O BCE vai retomar um programa de empréstimo em condições favorecidas para bancos da zona do euro.

Como explica o economista Samuel Pessôa, da gestora Reliance, “esse programa é um esforço do BCE de criar um mercado de crédito europeu em que os prêmios de risco privados sejam relativamente desconectados dos prêmios de risco das dívidas soberanas locais”.

Um exemplo é a Itália, onde problemas fiscais levaram a uma alta da rentabilidade do título do governo de dez anos (está em 2,5%, comparado a praticamente zero na Alemanha).

Como os juros soberanos (do governo) costumam ser a espinha dorsal da curva dos juros em cada país, levando consigo os juros bancários em geral, a ação do BCE com sua linha de crédito a bancos privados é justamente a de tentar mitigar este impacto da dívida soberana no custo do dinheiro em geral e, portanto, na atividade econômica.

Adicionalmente, o BCE sinalizou que pode manter sua taxa básica no nível atual, de zero, até 2020.

Segundo Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, o mercado aguardava sinais “dovish” (de relaxamento monetário) por parte do BCE, mas a dose veio acima do esperado, tanto que o euro se desvalorizou expressivamente depois do anúncio.

Rocha nota que a o diferencial da rentabilidade dos títulos do governo dos Estados Unidos e da Alemanha encontra-se em nível muito elevado: 2,64% contra 0,07% no momento em que era entrevistado pela coluna. O juro alemão está no ponto mais baixo desde novembro de 2016, tendo chegado a um pico recente de 0,8% em fevereiro de 2018, quando havia mais ânimo sobre a possibilidade de a zona do euro sair da atual anemia econômica. Antes do anúncio do BCE dessa quinta-feira, o juro soberano de 10 anos alemão rondava os 0,20%, tendo dado mais uma “pernada” para baixo com a virada “dovish” da autoridade monetária da zona do euro.

Em termos do Brasil, as mudanças na Europa não trouxeram maiores abalos, mas também não são de se negligenciar totalmente. A alta do dólar ante o euro costuma levar de roldão (não necessariamente na mesma proporção) outras moedas, e ajuda a explicar parte da desvalorização do real dos últimos dias.

Mas essa desvalorização se deu de forma relativamente ordeira, com os DIs, juros futuros de mercado, ficando próximos da estabilidade ou mexendo-se pouco.

Rocha, em particular, acha que o real um pouco mais desvalorizado pode se combinar com outros fatores – como uma inflação mensal em março e abril mais alta e dúvidas sobre o timing de aprovação da reforma da Previdência – para tirar de cena eventuais novas quedas da Selic, uma possibilidade que ainda ronda algumas análises e, na visão do gestor, pode estar embutida nos juros baixos dos DIs mais curtos.

“Acho que não tem mais charme ficar aplicado nessas taxas tão baixas”, ele diz.

De qualquer forma, num quadro mais amplo, os cavalos-de-pau pró estímulo monetário (ou pró menos retirada de estímulo monetário, com a direção sendo a mesma) nos Estados Unidos e na Europa, desde o início do ano, não estão atrapalhando o Brasil pelo canal financeiro – e, no que se refere aos juros americanos, certamente estão ajudando.

Resta o risco de que a desaceleração global produza algum evento e/ou quebra de expectativa mais drásticos e assustadores – que poderiam elevar a aversão ao risco dos emergentes –, combinados com uma freada mais aguda do comércio mundial. Nesse caso, o Brasil iria sentir. Até agora não surgiram sinais mais concretos de que um cenário desse tipo venha a ocorrer, mas sempre é bom ficar alerta.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/3/19, sexta-feira.

Tendências: