Cenário externo difícil

Armando Castelar, do Ibre/FGV, vê cenário externo difícil para o Brasil em 2015, mesmo se não houver surpresas negativas.

Fernando Dantas

09 de janeiro de 2015 | 18h01

O ano de 2015 começa com um nível bastante forte de consenso dos analistas sobre a situação global, observa Armando Castelar, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas. Em sua conta de Twitter, o economista fez um link de recente artigo do Financial Times sobre essa confluência das análises.

A visão quase geral é de que os Estados Unidos firmarão sua retomada, com boa probabilidade de que a alta da taxa básica, os fed funds, comece ainda este ano. Já Europa e Japão prosseguirão enredados na estagnação e às voltas com novas rodadas de afrouxamento quantitativo da política monetária. No mundo emergente, a tendência mais geral é de desaceleração, caso da China e América do Sul, mas pode haver melhora em países como Índia e Indonésia.

O problema de tal alinhamento das previsões e das posições dos investidores, diz Castelar, é que “se houver surpresas o tamanho do barulho vai ser enorme”. Outra constatação mencionada pelo economista é de que a atenção dos investidores e analistas nos últimos anos esteve muito centrada na atuação dos principais bancos centrais e em suas estratégias para reavivar as economias centrais. Mas os fatos recentes demonstraram que as surpresas podem vir de fora da seara da autoridade monetária, como a espetacular queda do preço do petróleo.

Castelar observa ainda que, mesmo na ausência de surpresas e sustos, o Brasil enfrenta um cenário internacional que é adverso considerando-se as peculiaridades e o alto grau de fragilidade atual do País.

Ele vê os preços das principais exportações do Brasil prosseguindo na queda, e acha possível que isto impeça qualquer melhora na balança comercial, mesmo com a economia parada e a desvalorização do câmbio. Simultaneamente, o custo de financiamento internacional de um déficit externo de 4% do PIB e das empresas brasileiras deve subir.

A situação do Brasil é particularmente difícil, segundo Castelar, porque o País não tem espaço de manobra. Ele compara com o Chile, também afetado pela queda dos commodities, mas que, com inflação e crescimento melhores que o Brasil, pode contemplar com mais tranquilidade a desvalorização e a desaceleração – que são parte da “solução” em termos de reequilibrar a posição externa.

Em relação especificamente à queda do preço do petróleo, o economista ainda mantém a ênfase nos efeitos positivos de curto prazo, ao resolver o problema da Petrobrás de importar gasolina e vendê-la no mercado interno com prejuízo. Por outro lado, no médio prazo, um petróleo muito mais barato reduz o valor presente do retorno dos vultosos investimentos brasileiros no pré-sal. Mas Castelar considera que o preço do petróleo ainda pode oscilar bastante, e que há alguma chance de que parte da atual queda seja devolvida em prazo não muito longo.

Já quanto à possibilidade de uma nova rodada de crise na Grécia – com as chances do Syrisa, partido radical de esquerda, chegar ao poder com uma plataforma de repúdio à austeridade, o que ameaçaria a permanência do país na zona do euro –, Castelar vê uma grande redução do risco de contágio para outros países europeus mais afetados pela crise, como Portugal, Espanha, Itália e Irlanda, expressa inclusive no atual custo de financiamento internacional destas economias. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 5/1/2015, segunda-feira.

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