Cenários com Trump

Plena implementação de propostas econômicas de Trump provocaria inflação, alta forte de juros e recessão nos Estados Unidos, segundo estudo da Moody's.

Fernando Dantas

03 de agosto de 2016 | 17h31

Muito se tem falado das ameaças para a economia global caso o candidato republicano, Donald Trump, vença as eleições presidenciais norte-americanas, com sua plataforma populista e protecionista. Recentemente, a agência Moody’s divulgou um relatório mais preciso sobre essa possibilidade, realizado por quatro economistas: Mark Zandi, Chris Lafakis, Dan White e Adam Ozimek.

Nos cenários da Moody’s de vitória de Trump, em caso de implementação total das propostas do candidato republicano (que a agência não considera o mais provável, por causa da resistência do Congresso), as taxas de juros americanas subiriam de forma bem mais drástica em 2017 e 2018 do que a previsão atual, o que poderia ter impacto negativo em países vulneráveis como o Brasil, que se beneficiam da alta liquidez global.

O cenário base do trabalho é aquele em que Trump tem que negociar sua plataforma econômica com um Congresso relativamente cético quanto à qualidade das mesmas, resultando em que as propostas sejam suavizadas e adaptadas às realidades políticas. Mas os analistas também avaliam dois outros cenários: aquele em que os planos de Trump sejam implementados integralmente, e aquele em que a aplicação do programa se faça em escala intermediária.

A agência desconsiderou propostas sem maior impacto econômico ou que não tenham sido suficientemente detalhadas para que se possa quantificar, como a extravagante ideia de reintroduzir o padrão-ouro. As simulações utilizam o modelo analítico da Moody’s, similar ao do Federal Reserve (Fed, BC dos Estados Unidos).

Resumidamente, as propostas de Trump, segundo a Moody’s, resultarão numa economia norte-americana mais fechada em termos de fluxos de mercadorias e pessoas, o que levará a menos investimento externo direto, recessão e perda de crescimento ao longo de vários anos.
Em termos fiscais, as propostas do candidato republicano provocarão maiores déficits e dívida pública: grandes cortes de impostos para pessoas e empresas, expansão de gastos militares e com veteranos e oposição a cortes na Previdência e no Medicare, programa de saúde para idosos (principalmente).

A Moodys’s menciona estudo do Tax Policy Center, de que as propostas tributárias do candidato republicano significam uma perda de US$ 9,5 trilhões em impostos durante uma década, e levariam a carga tributária dos Estados Unidos ao seu ponto mais baixo desde a segunda guerra mundial. A estimativa não leva em conta os impactos que um plano como este poderia ter na economia.

A agência avalia que, para que um corte de impostos dessa magnitude não piore os resultados fiscais, as despesas teriam de ser reduzidas em 20%. Trump, no entanto, pouco propôs de cortes além da tradicional promessa de reduzir desperdícios.

Em termos de imigração, a proposta de expulsar 11,3 milhões de imigrantes ilegais significaria dispensar um contingente de 3,5% da população e 5,1% da força de trabalho. Em termos comerciais, algumas das ideias de Trump, mencionadas pela Moody’s, são a de impor uma tarifa de 45% nas importações da China enquanto o país não permitir que sua moeda flutue livremente; e aplicar uma tarifa de 35% em produtos importados do México por fabricantes americanos que terceirizam sua produção no vizinho do Sul – o dinheiro seria usado para financiar a construção do muro entre Estados Unidos e México.

O resultado do exercício é de que, em caso de implementação total do programa de Trump, a economia americana sofre uma prolongada recessão entre o final de 2017 e 2020, perdem-se 3,5 milhões de postos de trabalho e o desemprego sobe do nível atual em torno de 5% para 7%. As ações e os imóveis perdem valor. Como as pessoas mais ricas serão mais beneficiadas pelo corte de impostos, e as mais pobres mais atingidas pela piora do mercado de trabalho, os planos de Trump são favoráveis às famílias de alta renda. A economia cresce uma média de 0,6% ao ano entre 2016 e 2020, comparado a 2,3% sem Trump.

No cenário intermediário, os números do crescimento são parecidos com os da implementação total das propostas de Trump, mas, caso prevaleça o terceiro cenário, de aplicação mais suave do programa do republicano, o crescimento entre 2016 e 2020 sobe para 1,5%.

Um aspecto curioso do cenário da Moody’s de plena implementação dos planos de Trump é que a inflação dos Estados Unidos sobe para 3,9% em 2017 e 5,4% em 2018 (contra, respectivamente, 2,7% e 2,8% no cenário sem Trump), como resultado do choque de oferta negativo da saída de imigrantes e do aumento das tarifas de importação. Dessa forma, os Fed Funds (taxa básica de juros norte-americana) sobem até 4% em 2017, e 6,3% em 2018; e a taxa dos títulos públicos de dez anos se elevam, nos mesmos respectivos anos, para 5,6% e 8,6%. Obviamente, este seria um mau cenário para o Brasil, fragilizado e dependente da liquidez internacional.

No caso dos cenários de implementação apenas parcial das ideias de Trump, a inflação também sobe, embora um pouco menos. Já os juros não são muito diferentes do que seriam em caso da derrota do republicano (Fed Funds de 2% e 3,6% em 2017 e 2018; e papéis de dez anos de, nos mesmos respectivos anos, 3,6% e 4%).
(fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/8/16, terça-feira.

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