China ainda não deixou a peteca cair

Resultado acima do esperado pelos analistas do PIB chinês no primeiro trimestre, mesmo junto a outros indicadores econômicos que decepcionaram, mostra que país ainda pode chegar perto da meta oficial de crescimento de 5,5% este ano.

Fernando Dantas

19 de abril de 2022 | 20h51

O crescimento da China de 4,8% no primeiro trimestre, comparado ao mesmo período de 2022, indica que é prematuro apostar numa desaceleração mais drástica do gigante asiático à frente. O dado foi divulgado na noite de domingo.

A projeção mediana do mercado para o indicador estava em 4,1%. Livio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG e pesquisador associado do Ibre-FGV, especializado em China, tinha previsão de 3,9%.

Ribeiro observa, de início, que, assim como no quarto trimestre de 2021, houve um descasamento entre dados econômicos de março de alta frequência e o resultado do PIB do primeiro trimestre.

Na China, ele explica, o PIB de um trimestre e esses dados de alta frequência do último mês do mesmo trimestre (com produção industrial e vendas do comércio) são divulgados simultaneamente. Dessa forma, a projeção do PIB carece de alguns dados importantes.

No caso do primeiro trimestre deste ano, porém, os indicadores antecedentes parecem não contar a mesma história do PIB. E, para entender melhor essa aparente discrepância, é preciso aguardar as aberturas das divulgações de ontem, que vão sendo liberadas no decorrer de uma semana.

Para complicar o quadro, acrescenta Ribeiro, o choque mais forte da variante ômicron, que levou a quarentenas radicais em Xangai e outras localidades da China, se deu justamente em março.

Diante de toda essa névoa, o analista destaca alguns aspectos do PIB do primeiro trimestre. Pelo lado da demanda, a contribuição principal, responsável por cerca de 70%, veio do consumo.

Segundo o analista, “esse resultado veio bastante em linha com a ideia de transição de modelo econômico, indicando talvez um retorno à realidade do que se estava discutindo antes da pandemia”.

Essa tão propalada “transição de modelo” é o esforço da China de superar a etapa de crescimento na base de exportações e investimentos maciços, para a fase por vezes mais difícil de expansão com base em consumo e serviços.

O economista nota, entretanto, que há evidência nos últimos números de descasamento entre os investimentos totais e os imobiliários, sendo que estes últimos foram fortemente tolhidos recentemente pela crise de grandes empresas do setor, como a Evergrande. Assim, pondera Ribeiro, há sinais de que a China possa ter acelerado os investimentos em infraestrutura para compensar o abalo no setor imobiliário.

Essa “saída” pelo setor de infraestrutura, turbinado pelos governos regionais tangidos pelo governo central, por outro lado, relembra o padrão chinês em momentos como a crise global de 2008-09, quando a transição de modelo foi posta de lado e jogaram-se todas as fichas na forma “tradicional” de estimular a economia chinesa.

Mas Ribeiro alerta que é equivocado imaginar que a China esteja voltando no tempo nesse sentido.

“Não é nada tão intenso quanto em eventos anteriores, estamos muito mais no terreno da sintonia fina do que naquela coisa de ‘vou pisar no acelerador a qualquer custo’”, ele diz.

Na análise do PIB chinês do primeiro trimestre pelo lado da oferta, chamou a atenção do analista o fato de que houve contribuições praticamente idênticas dos setores secundário (indústria) e terciário (serviços).

Ribeiro esperava um comportamento pior do setor terciário, em função das quarentenas e também dos serviços ligados ao setor imobiliário.

Ele nota que há dois choques principais em curso na economia chinesa – a onda da ômicron e os problemas imobiliários – cujos efeitos podem se retroalimentar. A construção civil impacta diretamente a indústria, enquanto tanto as quarentenas como a retração dos serviços imobiliários afetam o setor terciário.

Outro ponto destacado pelo analista é que, mesmo com a surpresa positiva do PIB chinês no primeiro trimestre, o país ainda está abaixo do nível de PIB em que estaria num cenário contrafactual sem pandemia, supondo a manutenção do ritmo de crescimento médio de 5,8-6% do período pós-crise financeira global até 2019.

Para Ribeiro, “algo aconteceu em 2021 que diminuiu um pouco o ímpeto do crescimento do PIB chinês”.

Com a surpresa positiva do primeiro trimestre, o economista revisou sua projeção de crescimento da China este ano de 5-5,1% para 5,3%. Este último número ainda está aquém da meta oficial de crescimento de 5,5% do governo chinês, mas já chegaria “ao redor”.

“A gente começa a voltar a uma situação em que o governo chinês ‘consegue entregar’”, ele acrescenta.

Em resumo, Ribeiro considera precipitado apostar numa desaceleração forte e problemática da economia chinesa este ano. Ele nota que o resultado do PIB no primeiro trimestre (ano contra ano) foi melhor do que o do último trimestre de 2022. É fato que a economia da China já não cresce tanto quanto no auge da arrancada das décadas mais recentes, mas não há sinais ainda de que o país esteja perdendo sua receita de sucesso.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/4/2022, terça-feira.