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China ajuda, mas ainda há incerteza

Fernando Dantas

10 de setembro de 2013 | 00h08

Das duas grandes ameaças do cenário externo ao Brasil, que se manifestaram de forma mais intensa no final do primeiro semestre, uma, pelo menos, caminhou no sentido da relativa tranquilização: o processo de desaceleração da economia chinesa, que, se for muito abrupto e desordenado, pode afetar fortemente o preço das commodities exportadas pelo Brasil.

A outra ameaça, como se sabe, são as perspectivas de normalização da política monetária norte-americana, que já vem reduzindo a liquidez internacional para os países emergentes.

(abaixo deste post, várias outras colunas da AE-News/Broadcast que só postei no blog agora, desculpem o atraso)

No caso da China, como explica Fabiana D’Atri, economista especializada no país asiático do Bradesco, o jogo começou a mudar, para melhor, em meados de julho. Junho, em particular, foi um mês de forte piora das expectativas em relação à China, com o momento tenso em que os juros interbancários subiram para níveis de dois dígitos.

A analista ressalta que, até então, dentro do processo mais geral de mudança do modelo de crescimento chinês e de desaceleração, o governo vinha numa escalada de comunicação muito dura, com ênfase no combate à corrupção, na correção do excesso de endividamento dos governos locais e de intervenção no chamado “mercado bancário à sombra” (“shadow banking”).

Os efeitos negativos nas perspectivas e na confiança em relação ao curto prazo, contudo, estavam muito fortes, e o governo chinês recuou, suavizando o seu tom. Isto foi quase simultâneo à divulgação em 15 de julho do crescimento do PIB chinês de 7,5% no segundo trimestre. Houve também, por parte do governo, a confirmação da meta de crescimento de 7,5% para este ano.

Essa mudança de tom foi seguida de um pacote de estímulos, que Fabiana frisa que nada teve das dimensões colossais do que foi acionado na crise de 2008 e 2009. Na verdade, ela explica, tratou-se mais de um conjunto de medidas relativamente pequenas, mas que tiveram a importância de sinalizar que o governo estava cuidando de evitar a desaceleração brusca temida em junho. Foram iniciativas como redução de impostos em alguns setores, estímulos a investimento em ferrovias, medidas para investimento em urbanização e incentivos para exportação, entre outros.

Mas o que vem ajudando a tranquilizar o mercado em relação à China é o fato de que, desde que o governo mudou o discurso em julho, os indicadores, de forma geral, têm sido positivos. No comércio exterior, por exemplo, a última boa notícia foi o aumento de 7,2% das exportações em agosto, acelerando ainda mais em relação ao número bom de julho, de alta de 5,1%. Em junho, as exportações chinesas haviam caído 3,1%, e as importações, 0,7%. As importações recuperaram-se para 10,9% em julho, e 7% em agosto. As comparações são com o mesmo período do ano anterior.

Fabiana nota que as pesquisas de confiança da indústria (PMI, na sigla em inglês pela qual este indicador é conhecido internacionalmente) também trouxeram boas notícias.

Assim, o PMI HSBC Markit, depois de cair para 48,2 em junho e 47,7 em julho, subiu para 50,1 em agosto. Já o PMI oficial foi de 50,1, 50,3 e 51, respectivamente, em junho, julho e agosto.

PMIs acima de 50 indicam expansão da indústria, e, abaixo, contração. A economista ressalva que os indicadores de agosto, apesar de estarem em terreno positivo, ainda indicam atividade industrial muito moderada. O importante no momento, porém, é o sentido positivo da trajetória desde o início do segundo semestre.

Segundo a analista, no momento, há um movimento dos analistas de ajustarem suas projeções de crescimento da China em 2013 para a faixa de 7,5% ou ligeiramente mais.

Sustentabilidade

Edward Amadeo, economista da gestora Gávea, no Rio, diz que “com certeza, a sensação do mercado e dos analistas é que a situação na China se estabilizou”. O problema, porém, ele continua, é saber até que ponto essa maior tranquilidade é sustentável.

Ele vê sinais mistos, por exemplo, no artigo publicado na segunda-feira, 9/9/13, no Financial Times pelo Primeiro-Ministro chinês, Li Keqiang. Amadeo acha positivo que o líder chinês tenha mencionado no texto a possibilidade de um “pouso forçado” (“hard landing”), como sinal de que a cúpula decisória do país está bastante sintonizada com os riscos à frente.

O artigo toca em pontos que Amadeo considera positivos como reformas administrativa, fiscal, tributária, financeira e do sistema de preços. Mas ele se preocupa com a parte em que Li Keqiang parte do geral para o detalhamento. Aí, Amadeo vê uma recaída no que considera um discurso anterior, de ênfase na mudança do modelo do investimento para o consumo e nas vantagens da urbanização.

O grande problema, na visão do economista, é que ficar repetindo o mantra da mudança de modelo não lida com o problema causado pelo maciço estímulo do pacote pós-crise global. Este impulso jogou a China excessivamente na direção do que ele chama de “modelo soviético”, em que o ritmo da atividade econômica é determinado em grande parte “por empréstimos de bancos semiestatais para empresas estatais e governos locais”.

Aliás, Amadeo considera esse modelo parecido com o do Brasil até a década de 80, em que as estatais e os governos estaduais, financiados pelos seus próprios bancos, puxavam a economia. Assim como no Brasil, que acabou forçado a privatizar estatais e bancos estaduais, depois que o modelo atingiu seus limites, Amadeo acha que, na China, ele também não é sustentável a longo prazo, já que “as dívidas estão crescendo muito mais rápido do que o PIB“. Ele nota que a qualidade do investimento liderado pelo Estado chinês é um problema sério, com acúmulo de capacidade ociosa e projetos de infraestrutura subutilizados ou inacabados.

A questão, para o economista, é saber até que ponto a nova liderança chinesa terá estômago para as reformas necessárias que, na visão de Amadeo, incluem um programa de privatização.

Esse conjunto de reformas traz o risco, de fato, de provocar uma queda mais forte da atividade econômica no curto prazo. Mas talvez a maior dificuldade, na visão de Amadeo, é que membros do Partido Comunista controlam as estatais e os governos locais. Assim, a ação do governo teria que se voltar contra a sua própria base de poder.

E 2014?

Fabiana, do Bradesco, também acha que pairam muitas dúvidas sobre os fundamentos da China, em questão como liquidez do sistema bancário, nível de endividamento dos governos locais, oscilações de demanda global, excesso de capacidade em alguns setores, além dos próprios efeitos nefastos da corrupção sobre a atividade econômica.

As medidas e a mudança de tom a partir de julho, para ela, devem garantir a melhora para o terceiro trimestre, enquanto o quarto vai depender em boa medida do que sair da reunião do Partido Comunista marcada para novembro. Ela nota que será a terceira reunião plenária da nova liderança chinesa empossada no ano passado, e que, além do premier Li Keqiang, inclui o presidente Xi Jinping.

Segundo Fabiana, “há grande expectativa de que novos passos de reforma sejam anunciados em novembro”. Ela nota que, entre os analistas, a torcida é para que os anúncios sigam na direção da planejada zona de livre Comércio de Xangai, onde poderá ser testado um ambiente financeiro mais liberal, com conversibilidade da moeda, liberação da conta capital e permissão para que o setor privado desenvolva mais modalidades de operações financeiras.

Para a economista do Bradesco, a melhora recente na China vem mais da confiança do que dos fundamentos, que permanecem relativamente enfraquecidos. Fabiana acrescenta que “está todo mundo ancorado na ideia de que o governo vai dar novos passos importantes ainda este ano, e, se houver frustração muito grande, acho que não há fundamentos suficientes para sustentar o mercado”.

Ela observa ainda que, apesar da virada positiva nas projeções de crescimento para 2013, “quase ninguém está falando em 2014”, exatamente pelas indefinições mencionadas acima. Como o Plano Quinquenal de 2011 a 2015 previa crescimento médio de 7%, e até agora a economia vem andando acima disso, ela acha que é possível que o governo mire uma desaceleração para 7% em 2014 e 2015, o que estaria no cenário de um pouso suave.  Mas ainda há muitas dúvidas pairando no ar, e é mais prudente não contar como definitiva a tranquilidade que vem emanando da China recentemente.

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

Esta coluna foi publicada originalmente em 9/9/13, na AE-News/Broacast

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