China atravessou o Rubicão de ida e de volta

Livio Ribeiro, analista de China do Ibre/FGV, revela perplexidade pela forma como a China peitou os Estados Unidos no câmbio e recuou em seguida. Para ele, pode ser sintoma de divisões no bloco de comando chinês, num momento particularmente delicado do país asiático.

Fernando Dantas

08 de agosto de 2019 | 13h47

Livio Ribeiro, especialista em China do Ibre/FGV, está perplexo com os últimos movimentos de peças, pelas autoridades econômicas chinesas, no tabuleiro de xadrez da guerra comercial com os Estados Unidos.

“A China cruzou o Rubicão e na sequência cruzou de volta, é difícil de entender”, comenta Ribeiro.

Na segunda-feira, os mercados globais tremeram quando a China deixou a sua moeda ser negociada num nível de desvalorização acima de sete renminbis por dólar.

No entanto, como explica o economista, a turbulência nos mercados não derivou apenas do movimento em si do renminbi, mas também da retórica oficial chinesa que acompanhou a decisão.

O Banco do Povo da China (banco central, PBOC, na sigla em inglês pela qual é conhecido internacionalmente) atribuiu a desvalorização, num primeiro momento, ao “unilateralismo e medidas de protecionismo comercial” (pelos Estados Unidos)”

Foi o movimento cambial em conjunção com a retórica inicial do PBOC que Ribeiro chama de “cruzar o Rubicão”. A impressão era de que A China tinha decidido ampliar o conflito para dar uma resposta à altura ao seu rival geopolítico.

O analista não quer dizer que aprova essa postura que, aliás, também lhe causou estranhamento. Porém, mais surpreendente para ele foi que a China voltou atrás, cruzou o Rubicão de volta, e com o prejuízo de ter sido tachada de manipuladora da moeda pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos pelo seu movimento inicial.

Na terça-feira, nota Ribeiro, o “fixing” da moeda chinesa (cotação inicial do dia, determinada pelo PBOC) foi de 6,96 renminbis por dólar, anormalmente abaixo do fechamento em 7,05 do dia anterior. Adicionalmente, Yi Gang, presidente do PBOC, explicou o fixing do renminbi na terça como uma intervenção para evitar uma depreciação excessiva da moeda.

Mas na segunda-feira não fora justamente a depreciação a ter sido explicada como reação à hostilidade comercial americana?

O analista observa que o passo da segunda-feira foi dado de bandeja para que os Estados Unidos reforçassem a sua narrativa de que a China usa o câmbio para jogar deslealmente no comércio internacional – e os americanos usaram imediatamente o presente, classificando a China de manipuladora da moeda.

A China já estava numa lista de observação do Departamento do Tesouro americano sobre possíveis manipulações da moeda, junto com países como Alemanha e Suíça, mas não tinha sido considerada manipuladora.

Segundo Ribeiro, a última vez que algum país foi considerado manipulador de moeda pelos EUA ocorreu em 1994, com a própria China.

Agora, a reclassificação como manipuladora abre caminho para que os Estados Unidos façam consulta formal ao FMI e até discutam medidas da retaliação à China, explica o economista.

No entanto, mais do que isso, ao reforçar a narrativa americana, a caracterização da China como manipuladora cambial coloca pressão sobre o país asiático num conflito que, na visão de Ribeiro, vai muito além do comércio e se trata na verdade de uma disputa pela hegemonia geopolítica global no século XXI.

Evidentemente, ao dar um cavalo de pau na retórica inicial, a China ficou com os custos iniciais da sua atitude de enfrentamento e renunciou a qualquer potencial ganho.

Mas por que isso aconteceu? Ribeiro não sabe explicar, mas acha que pode ser sintoma de conflitos e rachaduras dentro do bloco de comando chinês. Ele nota que o país passa por um momento difícil, com desaceleração econômica e inflação de alimentos.

“Há uma associação história na China entre quedas da renda disponível e instabilidades sociais”, ele diz.

Adicionalmente, há a situação política em Hong Kong, que vem se agravando, e a própria pressão da guerra comercial de Trump. Diante de todo esse quadro de dificuldades, o gigante chinês pode ter piscado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/8/19, quarta-feira.