China: câmbio e infraestrutura

Na contramão dos Estados Unidos em termos de ciclo econômico, China tem depreciação da moeda e deve acelerar projetos de infraestrutura para estimular a economia.

Fernando Dantas

28 de abril de 2022 | 11h31

A alta dos juros nos Estados Unidos não reduz a atratividade para os capitais internacionais apenas do Brasil, mas também do conjunto dos emergentes, incluindo a poderosa China.

Relatório divulgado na segunda-feira (25/4) pela Gavekal Research, empresa de análise financeira conhecida por seu foco na China, interpreta a queda abrupta do renminbi no final da semana passada como marca do fim de um ciclo de valorização da moeda chinesa que vem desde 2020, e início de um ciclo de desvalorização (mas que deve ser mais brando que outros ciclos de depreciação da história recente).

O renminbi, que vinha sendo negociado na faixa de 6,3-6,4 por dólar, fechou a 6,5/US$ na sexta-feira, 22/4. Esta semana está em 6,56/US$.

Segundo o analista Wei He, da Gavekal, a apreciação desde 2020 veio na esteira do aumento do superávit comercial e dos fluxos de portfólio, mas ambos os vetores estão se enfraquecendo desde meados de 2021.

O crescimento das exportações chinesas desacelerou-se de 17,8% no último trimestre de 2021 para 13,4% no primeiro de 2022. As exportações sofrem tanto pelo lado da demanda, com a desaceleração da economia global, e especialmente da Europa, mais afetada pela guerra na Ucrânia, quanto pela oferta, com o lockdown por causa da ômicron em Xangai, principal porto chinês.

Outro fator, não mencionado no relatório, é a normalização global das economias pós-pandemia, com menos demanda por bens manufaturados e  o da demanda por serviços.

Em termos de fluxos de portfólio, o problema é a divergência cíclica entre a economia chinesa e a americana (e, de certa forma, do resto dos países avançados e de boa parte do mundo).

Os Estados Unidos, como abordado várias vezes nesta coluna recentemente, estão lidando com a economia (especialmente no mercado de trabalho) aquecida e a maior inflação em 40 anos, e os juros estão subindo, devem se elevar mais e talvez muito mais.

A China – relativamente ao padrão das últimas décadas e a seu crescimento potencial – está numa situação diferente, lutando para que a alta do PIB este ano (e com mira nos próximos) não fique abaixo das metas do governo. Ou seja, não há aperto monetário.

Em consequência, como nota Wei He, pela primeira vez desde 2010, a rentabilidade de títulos do Tesouro americano está maior do que a de títulos do governo chinês de mesmo prazo. O que naturalmente tende a travar e reverter os fluxos de portfólio para a China.

Diante dessa situação, os condutores de política econômica da China abriram a sua caixa de ferramentas tradicional, isto é, estímulos ao investimento à infraestrutura, como explica outro pertinente relatório – no caso, divulgado hoje –, de economistas do Goldman Sachs.

Os analistas notam que, no encontro ontem da Comissão Central de Assuntos Financeiros e Econômicos, o presidente da China, Xi Jinping, pediu que se acelerassem as obras de infraestrutura, especialmente em transporte, energia, gestão hídrica e “nova infraestrutura” (supercomputadores, inteligência artificial etc.).

Ao enfatizar não somente o retorno econômico mas o retorno “global” dos projetos, Xi pode ter dado um sinal verde mais amplo, incluindo mesmo os projetos menos rentáveis.

O líder também pediu que se viabilizem financeiramente os projetos em infraestrutura, indicando uma postura mais liberal em relação aos incentivos e financiamentos dos governos locais, e menos preocupada com a saúde financeira desses entes subnacionais.

O Goldman Sachs projeta que o investimento em infraestrutura chinês permaneça crescendo num ritmo de dois dígitos nos próximos dois trimestres.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/4/2022, quarta-feira.