China não quer virar América Latina

Fernando Dantas

27 de junho de 2013 | 12h08

Há uma grande preocupação por parte das autoridades e acadêmicos chineses de que o país não caia na chamada “armadilha da renda média”, que é a incapacidade, depois de um impulso inicial de desenvolvimento, de continuar a convergir para os padrões socioeconômicos  do mundo desenvolvido.

O economista Fernando Veloso, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, está profundamente envolvido com aquele tema, tendo participado da organização do livro que tem justamente como título “Superando a Armadilha da Renda Média”. O trabalho é uma coprodução do Ibre e da Academia de Ciências Sociais da China (conhecida como CASS, da sigla em inglês). Pelo lado brasileiro, a coordenação também coube à economista Lia Valls Pereira, do Ibre.

O instituto brasileiro coordenou uma série de capítulos sobre os desafios do desenvolvimento brasileiro, e o CASS fez o mesmo em relação à China. O trabalho já foi publicado na China e tem lançamento previsto no Brasil para novembro, quando um seminário sobre os dois país será organizado.

“Os chineses estão muito preocupados em evitar que aconteça com eles o que ocorreu em muitos países da América Latina”, diz Veloso. Ele explica que nações como Brasil e Argentina são exemplos típicos da “armadilha de renda média”, tendo passado por um período de crescimento acelerado (no caso brasileiro dos anos 50 até o início da década de 80), que depois foi interrompido e deixou os dois países ainda longe do patamar dos desenvolvidos.

Veloso não gosta particularmente da expressão “armadilha da renda média”, mas entende que, de fato, há muitos desafios para os países quando se esgota a parte mais fácil do processo de crescimento rápido, pela transferência de trabalhadores da agricultura tradicional para a indústria e os serviços, que são mais produtivos.

Na China, ele diz, há angústia em relação a este momento, mesmo que a transição urbana ainda esteja ocorrendo no país, com cerca da metade a população ainda no campo. Os exemplos positivos são os tigres asiáticos, como Coreia do Sul, Taiwan e Cingapura, que percorreram toda a estrada e chegaram aos níveis socioeconômicos dos ricos. Já na América Latina, exemplos de trajetória interrompida assustam os chineses.

É neste contexto, diz Veloso, que se deve entender por que a nova liderança política da China está tão disposta a mudar o modelo que propiciou um crescimento fabuloso por mais de 30 anos. Há muita consciência de que a segunda parte da viagem ao desenvolvimento não pode ser realizada da mesma forma que a primeira.

Assim, a pauta de reduzir os investimentos, estimular o consumo, diminuir a desigualdade de renda, ampliar o setor de serviços e melhorar o cuidado com o meio ambiente não é, definitivamente, para inglês ver.

Nos últimos dias, os mercados se viram chacoalhados por um subproduto da mudança de modelo chinês. Como explica Veloso, a ideia mais geral é corrigir distorções do sistema financeiro, como o tabelamento dos juros de depósito, que estão na origem da enxurrada de crédito barato continuamente passada dos bancos estatais para empresas estatais do setor produtivo. Essa irrigação excessiva está na origem de muitos projetos de investimento de qualidade duvidosa.

Por outro lado, o setor produtivo privado depende excessivamente do “shadow banking” (sistema bancário nas sombras), pouco opaco, mais caro e também com riscos potenciais. O governo chinês gostaria de ver um sistema bancário mais uniforme, com juros maiores para as estatais e menores para o setor privado. Mas, para isso, tem de atuar com firmeza tanto no sistema bancário tradicional quanto no shadow banking.

As tensões dos últimos dias, com a alta dos juros interbancários, podem estar ligadas a este processo de reforma do sistema financeiro chinês. As autoridades econômicas do país são cautelosas, e já sinalizaram que vão evitar crises sistêmicas nessa parte financeira e bancária da transição para um novo modelo. O processo, porém, não será revertido. A China está decidida a fazer as mudanças, em todas as áreas, para evitar cair na armadilha da renda média.

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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