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China sem medo deTrump

Lívio Ribeiro, pesquisador do Ibre/FGV especializado na economia chinesa, diz que país asiático pode até se beneficiar com hostilidade de Trump aos acordos de comércio.

Fernando Dantas

11 Novembro 2016 | 15h05

A disposição de Donald Trump de renegociar e desidratar grandes acordos de comércio pode, ironicamente, ser benéfica para a China, um dos alvos principais do ímpeto protecionista do presidente eleito norte-americano. A visão é do economista Lívio Ribeiro, especialista em China do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV).

Um desses grandes acordos é a Parceria Trans-Pacífica (TPP, na sigla em inglês), que já foi assinado e espera ratificação dos parlamentos dos países participantes, inclusive do Congresso americano. A TPP reúne 12 países banhados pelo oceano Pacífico na Ásia e nas Américas, com a notória exclusão da China. Já a Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico (APEC) é um fórum de 21 países da área do Pacífico, incluindo a China, e foi criada em 1989.

Ribeiro explica que o enfraquecimento ou inviabilização desses acordos, que obedecem uma lógica econômica mais ao feitio do pensamento liberal das principais nações de ocidente, deixa a China mais livre, e com mais poder de barganha, para perseguir a sua própria estratégia de integração internacional.

Esta estratégia, segundo o pesquisador, é baseada na criação e adensamento de cadeias de produção verticalizadas fundamentalmente asiáticas, que têm no topo da cadeia de valor a própria China.

Esta visão estratégica está consubstanciada em propostas como o “Cinturão Econômico da Rota da Seda” ou “Um Cinturão, Uma Rota”, que tem como principal patrocinador o crescentemente poderoso presidente chinês, Xi Jinping. Os planos da China de integração das cadeias asiáticas de produção, tendo a si mesma como centro e ápice, incluem a criação de uma extensa infraestrutura logística marítima e terrestre, com rodovias e ferrovias, constituindo uma esfera de influência que vai até as franjas da Europa.

Na interpretação de Ribeiro, se o governo Trump de fato se encolher na esfera internacional e sabotar acordos plurilaterais com concepção mais aberta, estará facilitando o trabalho chinês de estender suas áreas de hegemonia.

Mesmo na América Latina, ao enfraquecer o setor exportador mexicano – outra de suas promessas, ou ameaças, de campanha –, Trump estaria ajudando a China, que compete em manufaturas com país centro-americano. A aversão do presidente eleito a acordos de comércio, que tira do mapa negociações com os países da América Latina, individualmente, em grupos ou no seu conjunto (como no caso da falecida Alca), também pode facilitar a penetração dos interesses chineses. Isso seria especialmente relevante no caso de economias mais especializadas no fornecimento de matérias-primas, como Peru, Bolívia e Chile. Ribeiro lembra que a China já se envolveu em ideias de projetos grandiosos na América do Sul, como a rodovia bioceânica Brasil-Peru.

Por outro lado, na parte cambial propriamente dita, o analista acha que os chineses não têm muito a temer das acusações – que com Trump podem se transformar em retaliações – de que manipula sua moeda, mantendo-a desvalorizada, e utiliza subsídios velados, provocando a transferência de empregos manufatureiros dos Estados Unidos para a China.

Ele nota que, desde a reforma cambial do ano passado que tornou menos rígida a trajetória do renmimbi, a moeda chinesa de fato depreciou-se ante o dólar de forma geral, mas acompanhando a trajetória de várias outras moedas. Quando se toma a cesta de comércio da China, em termos reais, a depreciação foi muito menor.

“De fato não há nenhuma guerra cambial, o que não significa que Trump não dirá que há”, diz Ribeiro.

Para ele, entretanto, qualquer retaliação americana – na forma de alta de tarifas de importados chineses, por exemplo – não deslocará a produção para o Estados Unidos, mas sim a realocará nas cadeias asiáticas que giram em torno da própria China.

Segundo o analista, “há uma integração entre a necessidade americana de bens finais e intermediários e a produção chinesa e asiática – os Estados Unidos não têm como suprir tudo com produtos americanos”. Assim, a sua expectativa é de que as reviravoltas que Trump pode causar no sistema mundial de comércio não devem prejudicar a China. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/11/16, sexta-feira.