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E-Investidor: qual o melhor investimento para 2020?

Choque desinflacionário

Crise do coronavírus derruba inflação, apesar de um repique inicial dos alimentos, por causa da corrida aos supermercados para abastecer as casas para a quarentena. Mas o que acontecerá com a Selic?

Fernando Dantas

10 de abril de 2020 | 17h45

O que já era previsto pela grande maioria dos economistas começa a se confirmar: o choque da Covid-19, apesar da disparada do dólar, é fortemente desinflacionário, pelo estrago que está produzindo na demanda de diversos produtos, principalmente dos serviços.

Nem é preciso ser economista para imaginar o efeito que o isolamento social está tendo em negócios como restaurantes, bares, cinema, teatro, shows, recreação em geral, viagens, passagens aéreas, aluguéis de carros etc. E há o fator adicional dos combustíveis, pressionados para baixo pela despencada do preço do petróleo, apesar da desvalorização.

O IPCA de março veio em 0,07%, abaixo da mediana de 0,12% das Projeções Broadcast, e recuando ante o resultado de 0,25% em fevereiro.

De acordo com a Guide Investimentos, segundo reportagem de Cícero Cotrim para o Broadcast, serviços, núcleos de diferentes tipos, média dos núcleos e preços livres recuaram em março, relativamente a fevereiro – como indicavam as projeções de mercado (em alguns casos, a redução foi inferior ao previsto pela mediana dos analistas).

Também já era esperado que, nas primeiras semanas da quarentena, houvesse alta da inflação de alimentos. No IPCA de março, o item ‘alimentação e bebidas’, com peso de 19,35% no índice, subiu 1,13%. E a alimentação no domicílio, com peso de 13,45%, teve alta de 1,39%.

Como explicaram os economistas Aloisio Campelo e André Braz em recente artigo no Blog do Ibre, essa alta é explicada pela corrida das famílias aos supermercados, para formar estoques de alimentos e outros produtos de consumo doméstico para o período de quarentena, aliada a gargalos de oferta provocados também pela crise.

Mas os dois analistas não veem condições para que a alta dos alimentos se sustente em abril, e preveem recuo.

Flávio Serrano, economista-chefe do Haitong Bank, diz que o recuo do IPCA era esperado, mas que dois fatos o surpreenderam.

Os “artigos de residência”, que incluem itens como mobiliário e aparelhos eletrônicos, tiveram deflação de 1,08%, mais aguda do que a prevista por ele (-0,20%). É um sinal de que a queda de demanda pode estar atingindo esses segmentos com muita força.

A outra surpresa foi no item “produtos de higiene pessoal”, que teve um salto de 1,4% no IPCA de fevereiro, no qual alguns analistas viram um fator metodológico. Em março, a inflação do item foi de 0,46%, com um recuo maior do que o esperado por Serrano – inclusive por conta da elevação da demanda por alguns destes produtos (álcool, papel higiênico) em função da própria pandemia.

Em relação à alta do dólar, Silvio Campos Neto, economista da consultoria Tendências, nota que está pesando nos IGPs, mas não – pelo menos, ainda não – nos IPCs.

“O eventual repasse aos IPCs é algo a monitorar, mas a queda da demanda ajuda a segurar; e, mesmo nos IGPs, há o fator compensatório do recuo do preço das commodities”, diz o analista.

A inflação à frente segue comprimida, para os dois analistas mencionados acima. Serrano, do Haitong, vê IPCA próximo de zero em abril e maio, com possibilidade até de um número negativo.

Para 2020, o analista prevê IPCA de 2,8%, e isto pressupõe a volta a uma certa normalidade nos últimos quatro ou cinco meses do ano, com destaque para a gasolina, com uma projeção de petróleo em torno de US$ 40 o barril (o barril WTI está próximo de US$ 26).

O limite para baixo do intervalo de tolerância de 1,5 ponto porcentual (pp), em torno da meta de 4% de 2020, é de 2,5%. Serrano diz que não dá para descartar que o IPCA venha abaixo do limite, mas, diante da força e da imprevisibilidade do choque da Covid-19, o BC não teria muito dificuldade em se justificar.

O analista prevê corte de 0,5 pp na reunião do Copom do início de maio, mas ressalva que, com o nível de incerteza e volatilidade do cenário atual, muita coisa pode acontecer em quase um mês. No seu cenário, a Selic vai para 3,25% em maio e fica aí até o fim do ano, mas ele acrescenta que há mais risco de mais redução da taxa básica do que de menos, em relação ao que previu.

Como o horizonte da política monetária é longo, e a baixa inflação de 2020 já está de certa forma cristalizada pelo choque da Covid-19, Serrano vê o BC mais preocupado com a atividade este ano e com a inflação em 2021.

E, em termos de atividade, apenas mexer na Selic, baixando-a ainda mais, pode ser contraprodutivo se os juros mais longos empinarem, inclinando a curva.

O que está na mente do economista, assim como de muitos observadores (e certamente do BC, pela sua comunicação recente) é o risco de que a enorme expansão fiscal para combater a crise revele-se menos temporária do que deveria ser.

Maior risco de solvência pública adiante pode se traduzir em juros neutros mais altos. Sempre é difícil discriminar precisamente ao que a curva de juros está reagindo, e as indicações recentes são de que os movimentos vêm bem mais do exterior, mas o BC com certeza tem as barbas de molho em relação aos (des)caminhos que pode tomar a gastança anticrise.

Campos Neto, da Tendências, tem uma visão parecida, e inclusive projeção de política monetária até mais conservadoras: a Selic fica no nível atual, de 3,75%, até o fim do ano. Ele considera que o problema do BC agora, mais do que o nível da Selic, que já é bastante baixo comparado a outros países emergentes, é de prover liquidez e desempoçar a circulação de dinheiro na economia.

Campos Neto aponta a mesma questão da inclinação da curva de juros, que o BC não controla diretamente (pelo menos não com o manuseio da Selic) e o risco do expansionismo fiscal supostamente temporário vir a ter efeitos permanentes.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/4/2020, quinta-feira.