Cicatrizes econômicas da pandemia

Estudo de economistas do FMI sobre perdas de oferta potencial da economia por causa da pandemia indicam que, ao contrário da grande crise financeira global (2008-2009), desta vez emergentes devem sofrer mais que ricos.

Fernando Dantas

17 de agosto de 2021 | 23h56

Quais serão as “cicatrizes” econômicas deixadas pela pandemia? O termo significa, no caso, dano permanente à oferta potencial, e o tema é investigado em recente estudo de economistas do FMI (Philip Barrett, Sonali Das, Giacomo Magistretti, Evgenia Pugacheva e Philippe Wingender).

Eles fazem um exercício a partir de dados de recessões passadas, e outro sobre mudanças nas projeções de crescimento para o período de 2022-2024 em função do surgimento da pandemia.

Eles notam que as expectativas do analistas, apesar da recuperação rápida da economia após a fase de impacto mais forte da Covid-19 na atividade, é de que o PIB global no médio prazo, em 2024, esteja 3% abaixo do ponto que se projetava para esse ano antes da pandemia.

O que é uma “cicatriz” menor que a deixada pela grande crise global de 2008-09 – quando alcançou -8,7% –, na qual os países ricos sofreram mais que os emergentes (agora, espera-se o contrário).

Os economistas observam ainda que a experiência passada indica que as maiores cicatrizes ocorrem depois de crises financeiras, o que não foi o caso da pandemia.

Em relação ao padrão esperado agora, de emergentes com perdas maiores, a expectativa reflete em parte o fato de que os ricos implantaram pacotes de socorro fiscal proporcionalmente maiores em média. Também se projeta que países com maiores setores de serviços ou nos quais o turismo é mais importante tenham cicatrizes maiores.

Quanto às recessões passadas, a contribuição dos pesquisadores é uma análise a partir de amostra de 586 episódios em 115 países de 1957 a 2019, por meio da qual estudam os canais pelos quais os danos permanentes ocorrem.

O exercício indica que perdas de médio prazo em PIB per capita em recessões típicas são basicamente atribuíveis a perdas na produtividade total dos fatores (TFP). Já em recessões ligadas a crises financeiras, as perdas atingem a TFP, a razão capital por trabalhador e o emprego per capita.

No caso da recessão da Covid, os pesquisadores alertam que as cicatrizes podem ser maiores do que as sugeridas pelos padrões de recessões passadas.

Setores dependentes de muito contato humano podem sofrer reduções permanentes, houve perdas definitivas em educação (especialmente em países pobres), e o poder de mercado de empresas dominantes pode aumentar, reduzindo a competição, por causa da grande quebra de pequenos negócios. Por outro lado, pode haver o efeito compensatório do aumento de digitalização e inovação trazido pela pandemia.

Outro exercício dos autores é comparar projeções econômicas para o horizonte de 2022 e 2024 feitas antes de depois da eclosão da pandemia, com destaque para as previsões do World Economic Outlook (WEO, Panorama Econômico Global) do FMI de janeiro de 2020 e de abril de 2021.

Eles encontraram que um desvio padrão a mais de dependência de turismo e viagens, por parte de um país, leva uma redução adicional de 2,5% no PIB esperado para 2022 (isto é, entre as projeções que levaram e não levaram em conta a pandemia). Esse número cai para 2% em 2024.

Já no caso de economias com maior setor de serviços, a mesma métrica leva a uma queda adicional de 0,5% do PIB em 2022, com algum aumento até 2024, mas se mantendo inferior a 1%. Em termos de medidas fiscais, há ganho do PIB de pouco menos de 1%, estendendo-se de 2022 a 2024, associado a um desvio padrão a mais do tamanho do pacote.

Outro fato encontrado na análise das projeções, comparando as previsões do WEO de outubro de 2020 com as de abril de 2021 – estas últimas incorporando o avanço da vacinação e uma recuperação mais rápida do que a esperada no segundo semestre de 2020 –, é que as previsões de crescimento dos países ricos cresceram bem mais do que a dos emergentes em função das boas notícias.

Na conclusão, os economistas do FMI recomendam que os países continuem tomando medidas para sustentar o crédito, e que maximizem a utilização do espaço fiscal mirando os setores e as empresas mais prejudicados pela pandemia. Adicionalmente, os países deveriam tentar reverter as perdas em educação, estimular o emprego e a realocação de trabalhadores e promover competição, inovação e adoção de novas tecnologias.

Não dá para evitar as cicatrizes econômicas da Covid, mas é possível torná-las menos profundas e duradouras.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/8/2021, sexta-feira.

O jornalista sai de férias e volta a escrever esta coluna em 30/8, segunda-feira.