Cientistas políticos veem favoritismo de Dilma

Fernando Dantas

08 de outubro de 2014 | 17h31

Para dois cientistas políticos da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), da FGV-Rio, a presidente Dilma Rousseff se mantém como favorita à reeleição, mas num cenário de segundo turno que pode se tornar bastante disputado.

Cesar Zucco Jr previu em julho, num dos piores momentos da candidatura Dilma, que a atual presidente tinha espaço para se recuperar. Ele baseou-se em dois fatores. O primeiro é seu trabalho com a cientista política Daniella Campelo no chamado “índice de bons tempos econômicos”, que a partir de um indicador baseado apenas no nível de preços de commodities e de taxas de juros internacionais revelou um grande poder preditivo sobre reeleições na América Latina. O segundo foi o descompasso entre a popularidade de Dilma em julho e avaliações à época de suas qualidades pessoais e de diferentes programas de seu governo.

Rigoroso em relação aos seus próprios métodos, Zucco diz hoje que tanto a votação de Dilma no primeiro turno quanto à popularidade que ela atingiu ao fim da propaganda eleitoral não chegaram aos patamares que ele previra. Na verdade, é excesso de zelo. Tanto num caso como no outro, a tendência caminhou de forma impressionante na direção que o cientista político apontava.

Em relação à situação ao final do primeiro turno, Zucco nota que os resultados não foram tão surpreendentes quando se considera o que se pensava há cerca de um ano. Na verdade, comparando com o primeiro turno de 2010, Marina avançou pouco em relação à sua votação, Aécio obteve cerca de um ponto porcentual a mais de votos que José Serra e Dilma caiu aproximadamente quatro pontos porcentuais. Levando em conta que a economia bem pior ajuda a oposição, Zucco diz que o resultado ficou bem dentro do que seria de esperar antes que a morte de Eduardo Campos e o furacão Marina embaralhassem as cartas.

“O cenário está montado para uma eleição competitiva”, diz o cientista político, notando que “Aécio vem embalado para o segundo turno e Dilma deu uma leve estagnada”.

Mas há um fator que pode ajudar a presidente, na sua opinião. Há algumas de evidências que a atuação eleição está ainda mais polarizada por renda do que as anteriores. Ele cita um levantamento rápido a que teve acesso sobre dados educacionais dos eleitores dos diferentes candidatos na Bahia (que o TSE libera), e que indicavam extrema polarização. O mapa da votação em Dilma e Aécio pelos bairros do Rio de Janeiro vai na mesma direção.

“É pouca evidência ainda, mas sugere que a polarização aumentou – se isto for verdade, facilita a estratégia do PT de colocar o PSDB como o partido do mercado, do ajuste fiscal via arrocho salarial, enquanto Dilma aparece como a candidata que se preocupa com os pobres e quer manter o emprego e a renda”, ele diz, comentando o que o próprio PT já sinalizou que esta será uma das principais tônicas da estratégia de segundo turno.

No primeiro turno, observa Zucco, a necessidade de atacar Marina tirou o foco do PT na polarização tradicional com o PSDB, que agora deve voltar com toda a força. “É basicamente o discurso do governo dos pobres contra o governo dos ricos”, ele diz.

Segundo o cientista político, a piora da economia pode, meio que paradoxalmente, aumentar a potência do discurso que explora a insegurança dos beneficiários de programas sociais em caso de vitória tucana, pelo fato de que esta população fica ainda mais dependente destes benefícios.

Já as armas do PSDB, para Zucco, serão os temas da corrupção e da inflação. Ele nota que, numa conta muito simples, que pressupõe que os eleitores de Dilma e Aécio repitam o voto no segundo turno, o tucano teria de receber apoio de quase 70% dos eleitores de Marina para garantir a vitória. Ele considera uma taxa de conversão muito alta, considerando que boa parte dos “marinistas” com algum nível de identificação com Aécio já migraram para ele no primeiro turno. Em relação ao provável apoio de Marina a Aécio, Zucco considera que é importante, mas ressalva que seria mais decisivo se o PSB tivesse uma estrutura partidária mais capilar de prefeitos, vereadores e cabos eleitorais, o que só existe muito localizadamente, como no caso de Pernambuco.

“Acho que vai ser uma eleição apertada, mas com a visão de hoje eu apostaria em Dilma, considerando inclusive que o PT levou a melhor neste embate nas três últimas vezes”, conclui o cientista político.

Vantagem estrutural da esquerda

Octavio Amorim Neto, também da Ebape, diz que “deve ser uma disputa duríssima, em que ambos os lados têm ativos e passivos, mas considero que Dilma continua tendo a vantagem, mesmo que a eleição esteja longe de estar decidida”.

Como vantagens da atual presidente, ele cita os recursos administrativos e orçamentários e a grande capacidade de atração que exercem. No caso de Minas Gerais, por exemplo, o eleitor pode ser influenciado pela vontade de ver um alinhamento entre o governador eleito, o petista Fernando Pimentel, e a presidente, o que pode trazer vantagens para o Estado.

Um fator muito importante, para Amorim, é o que chama de “vantagem estrutural da esquerda em sociedades desiguais como o Brasil e outros países da América Latina”. Para ele, o tema da desigualdade e da distribuição vai se manter na agenda por décadas, e “os partidos de esquerda são os que têm mais condições de prometer com credibilidade que vão promover a distribuição”.

O cientista político vê Dilma e seu marqueteiro João Santana mobilizando-se em torno desse tema no segundo turno, com a presidente já atacando os “monstros do passado” e dizendo que o voto é uma arma dos pobres. Historicamente, rememora Amorim, o PTB, de centro-esquerda, ganhou força paulatinamente no período democrático de 1946 e 1964 (sendo a sua crescente força um dos motivos do golpe); o PMDB fortaleceu-se durante o regime militar, nas eleições consentidas; e o PT despontou na redemocratização.

Ele não considera que isso seja uma tendência monolítica que levaria o PT a uma dominância do tipo que o PRI mexicano teve durante um longo período, mas ainda assim é um fator que dificulta enormemente que as forças conservadoras e liberais derrotem candidatos da esquerda em eleições presidenciais no Brasil.

Por outro lado, Aécio conta com uma economia que não vai bem e a recente safra de escândalos que atingem o governo federal. Além disso, também há a poderosa máquina política e administrativa de São Paulo, principal colégio eleitoral do País e palco de uma histórica e fragorosa derrota do PT no primeiro turno. O PSDB está mais unido nesta eleição e há a possibilidade de que desta vez as duas forças de oposição se unam no segundo turno para tentar derrotar Dilma, caso Marina de fato declare apoio a Aécio.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 7/10/14, terça-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.