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Círculo virtuoso ou vicioso?

As interações entre política e economia no Brasil até as eleições de 2018.

Fernando Dantas

27 Setembro 2017 | 11h07

Não há dúvida que o sentimento médio do mercado em relação ao Brasil no momento é de otimismo, mesmo que a aprovação da reforma da Previdência ainda este ano tenha se tornado uma possibilidade extremamente remota (à luz dos fatos conhecidos hoje).

As explicações correntes mais batidas para a felicidade do mercado são o cenário internacional extremamente benigno; o grande sucesso do Banco Central em “quebrar a espinha dorsal” da inflação, abrindo uma larga e longa avenida de juros ineditamente baixos para ser trilhada por um bom período; e uma visão – esta sim, de um otimismo talvez demasiado – de que algum candidato centrista vencerá a eleição de 2018 e manterá a rota reformista iniciada pelo governo de Michel Temer.

Hoje (26/9/17, terça-feira), em coluna no Estadão, o economista José Márcio Camargo cristalizou em palavras uma outra explicação que de certa forma já estava pairando como uma sensação positiva para os investidores. Mesmo sem reforma da Previdência, o conjunto de reformas empreendido no governo Temer é substancial o suficiente para que a economia decole para tempos melhores.

Camargo cita itens como liberalização dos preços de combustíveis, redução de tarifas de importação de bens de capital, atuação anti-inflacionária do BC, TLP, reforma trabalhista, entre outros.

Em conversa complementar com a coluna, o economista prevê que, dentro de um ano, o Brasil manterá uma inflação próxima a 3%, a taxa de desemprego terá caído a um dígito e o hoje impopularíssimo Temer poderá até ser um “eleitor importante”, ainda que obviamente não um líder reverenciado cujo apoio eleja “postes”.

É uma aposta bastante ousada. Na verdade, o que está em jogo daqui até as eleições em 2018 é a tradicional e complexa interação de duas mãos entre economia e política. Um ritmo suficientemente forte de retomada pode aumentar as chances de candidatos centristas, o que, por sua vez, eleva a confiança dos agentes e pode tornar ainda mais forte a recuperação, num círculo virtuoso – do ponto de vista do que querem os investidores e o mercado.

Há, é claro, o pano de fundo da grande pergunta sobre se Lula será ou não candidato. A sensação nos últimos dias é que aumentaram as apostas de que ele não será, até no campo do próprio presidente. Mas se há algo difícil de acompanhar e prever são os complicadíssimos procedimento e rituais da Justiça brasileira.

Abstraindo-se do fator Lula, a fotografia do momento não é boa para os centristas, que não decolaram nas intenções de votos e cuja rejeição tem aumentado.

Assim, a impressão é de que a eleição de um candidato pró-reformas no ano que vem dependerá fundamentalmente de dos fatores: o desenlace do affair Lula e a recuperação da economia (incluindo principalmente a queda do desemprego). Como o primeiro fator é imprevisível, resta focar o segundo.

É útil contrastar o otimismo de Camargo com a visão do economista Carlos Macedo, da gestora Canepa, no Rio. Macedo enxerga vários pontos positivos que, de fato, estão cimentando a retomada da economia, como o cenário externo e o avanço no ajuste da situação financeira das famílias e das empresas.

A discordância da Canepa em relação à ala mais otimista do mercado se dá, entre outros fatores, pela percepção do risco eleitoral, afetando a confiança; e pelo fato de que, pelo lado da oferta, as perspectivas de crédito ainda são de manutenção ou até de revisão para baixo. No mercado de trabalho, Macedo acha que de fato o aumento do emprego informal é o primeiro passo depois de uma recessão, mas a caminhada até a formalização pode ser mais demorada do que supõem os mais entusiasmados.

Dessa forma, a gestora mantém uma previsão de crescimento de 1,8% para 2018, não acompanhando por enquanto aqueles que já estão de 2,5% para cima. Uma retomada tão tépida pode não ser suficiente para aumentar a sensação de bem-estar em 2018 a ponto de criar um ambiente favorável aos centristas. Nesse caso, há o risco de que a sensação de risco eleitoral aumente, prejudicando a recuperação, num círculo (vicioso) inverso ao descrito acima. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/9/17, terça-feira.