Com alívio na atividade, inflação volta ao foco

Fernando Dantas

23 de agosto de 2012 | 21h16

Segue minha coluna de ontem (22/8/12) na AE-News/Broadcast:

Com os sinais de recuperação da economia brasileira, pode estar se encerrando um período bastante atípico, que durou alguns trimestres, de carência de demanda. Para Samuel Pessôa, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, a situação quase constante na economia nacional ao longo dos últimos 20 anos é de excesso de demanda. É o cenário conhecido dos brasileiros, no qual o governo luta para segurar a demanda, com juros altos e expressivos superávits primários.
 
Nos últimos cinco anos, porém, houve dois momentos significativos de falta de demanda. O primeiro, na esteira da eclosão da grande crise global, em setembro de 2008, caracterizou-se por dois a três trimestres de queda em parafuso da atividade econômica em âmbito global, com a violenta contração de crédito a partir das economias mais avançadas. Na época, os economistas que defenderam a ideia de que a forte desvalorização do real faria com que o choque acabasse sendo inflacionário perderam a aposta.
 
Esta segunda fase de demanda insuficiente, que dá sinais de estar acabando agora, foi ainda mais surpreendente do que a primeira. Em 2008, foram poucos os que previram uma crise de proporções gigantescas como a que de fato ocorreu. Mas, depois do colapso do Lehman Brothers, e das consequências catastróficas no mercado financeiro, ficou claro para muitos analistas que um colapso da economia real estava a caminho.
 
Em meados de 2011, no entanto, mesmo com os problemas fiscais nos Estados Unidos seguidos da crise da dívida soberana na Europa, a situação era mais complexa e sutil. Os países emergentes já haviam dado mostras de uma relativa capacidade de descolamento do mundo avançado, e não houve nada parecido com a pancada nos mercados globais de crédito ocorrida em 2008 e 2009.
 
Assim, quando Banco Central iniciou o ciclo de redução da Selic, a taxa básica de juros, no fim de agosto do ano passado, os protestos dos analistas foram generalizados. O BC, porém, teve razão ao pressentir o quadro de demanda combalida, e antecipar o início do ciclo de afrouxamento monetário.
 
Ainda está para ser bem entendido o quadro econômico dos últimos trimestres no Brasil. Há certo consenso de que a demanda foi prejudicada, do lado do consumo, pelo limite atingido (ainda que temporário) no ciclo de expansão de crédito, e, do lado do investimento, pela dramática piora da situação na periferia do euro e o temor de uma nova crise do estilo de 2008. Mas o mercado de trabalho resistiu firmemente, com destaque para a renda, fenômeno que provavelmente ainda será muito debatido pelos economistas. Compondo também este quadro, esteve o péssimo desempenho da indústria, aquém das expectativas mais pessimistas.
 
Por um momento, surgiu a dúvida de se o mau desempenho da indústria contaminaria os serviços e o consumo das famílias, levando a economia para uma paralisia ainda mais forte; ou se, contrariamente, a resistente exuberância do setor de serviços e do mercado de trabalho é que finalmente resgataria a indústria do seu marasmo. Não há ainda uma resposta definitiva a essa pergunta, mas os sinais mais recentes indicam que a segunda – e muito melhor – alternativa pode estar se materializando.
 
Depois de caírem em maio, tanto o varejo ampliado (inclui automóveis e material de construção) quanto o restrito subiram vigorosamente em junho, respectivamente 6,1% e 1,5%. A isenção tributária para os automóveis, que subiram 16,4%, obviamente influenciou o resultado de junho, mas o bom desempenho do varejo restrito indica que o bem-estar foi mais geral. Em 12 meses, o varejo ampliado acelerou seu crescimento de 5,3% em maio para 5,6% em junho; o restrito, de 7,3% para 7,5%.
 
A prévia do Índice da Situação Atual da Sondagem da Indústria atingiu 105,8 em agosto, contra 102,8 do resultado fechado de julho. O avanço foi maior do que o leve recuo da prévia do Índice de Expectativa, que ficou em 102,6, comparado ao resultado final de 102,8 de julho. Já o indicador mensal de investimento da indústria subiu 1,4% na média trimestral de abril a julho, acelerando ante o ritmo de 1% de março a maio.
 
No mercado de trabalho, a notícia boa e surpreendente foi a criação líquida de 142,4 mil empregos formais em julho, acima do topo das expectativas. E, em termos de PIB, o indicador antecedente do BC, o IBC-Br, subiu 0,75% em junho ante maio, na série dessazonalizada, depois de ficar praticamente parado entre dezembro e maio. O PIB mensal Itaú Unibanco (PIBIU) teve alta forte de 0,8% em junho, comparado a maio, na série livre de influências sazonais.
 
Se os sinais da atividade finalmente parecem promissores, o lado preocupante, naturalmente, é o comportamento da inflação nesta nova conjuntura. A expectativa do mercado para o IPCA de 2012 saltou para 5,15% em 17 de agosto, comparada a 4,92% quatro semanas antes.
 
Particularmente incômoda, para Pessôa, é a reversão recente do incipiente recuo na elevada inflação de serviços. No acumulado de 12 meses, o indicador recuou do pico de 9,2% em janeiro para 7,5% em junho, mas voltou a 7,9% em julho.
 
“Dado o mercado de trabalho ainda virtualmente a pleno emprego, e o IPCA cheio ainda muito alta, se os serviços voltarem a subir, nós teremos problemas inflacionários à frente”, prevê o economista.

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