“Combo energia” na inflação

IPCA de março é puxado por gasolina, gás e energia elétrica. No ano, projeções já indicam índice perto do teto de tolerância da meta, de 5,25%. A âncora são os serviços, por um motivo ruim: pandemia e mais desaceleração.

Fernando Dantas

13 de abril de 2021 | 10h46

O IPCA de março, de 0,93%, veio abaixo do intervalo de expectativas do Projeções Broadcast, de 0,94% a 1,10%, com mediana de 1,03%. Ainda assim, a inflação oficial em 12 meses subiu para 6,1%, bem acima do teto do intervalo de tolerância da meta deste ano, de 5,25% (3,75%, a meta, mais 1,5 ponto porcentual, pp).

O sistema de metas brasileiro, no entanto, mira o ano calendário, e, portanto, a meta não está oficialmente descumprida. Resta ver se o BC conseguirá mantê-la no teto de 5,25% no fechamento do ano. A meta em si, de 3,75%, já é dada como perdida por todos.

O economista André Braz, especialista em inflação da FGV, nota que o IPCA de março foi “quase todo energia”.

Só o aumento da gasolina de 11,23% contribuiu com 0,6pp do 0,93%. Adicionalmente, o gás encanado subiu 1,09% e o gás de botijão, 4,98%. A energia elétrica teve alta de 0,76%, abaixo do índice cheio, mas ainda assim num nível salgado.

Braz espera que a inflação desse “combo energia” se abrande em abril, o que vai contribuir para levar o índice para cerca de 0,4%, na sua projeção.

O analista projeta IPCA de 5,1% em 2021, ainda abaixo do teto de tolerância por um tiquinho, portanto. A equação inflacionária deste ano, na sua visão, está ligada a particularidades de componentes diversos como alimentos, preços administrados, bens industriais e serviços.

O grupo alimentação e bebidas teve inflação de 0,13% em março, depois de registrar 0,27% em fevereiro. É uma desaceleração, mas Braz nota que o grupo está num nível de preço extremamente elevado, acumulando alta de 13,88% em 12 meses.

No curto prazo, ele não vê muito risco de pressão inflacionária dos alimentos, mas nota que trabalhadores pobres sem emprego ou com ganhos estacionados – ou, na melhor das hipóteses, ajustados em torno da inflação corrente – vão sofrer duramente se o elevado nível do preço da comida se mantiver.

Um grupo complicado para a inflação este ano são os preços administrados, em que entram o grupo ligado à energia, além de planos de saúde, remédios e aluguéis. São muitas variáveis difíceis de prever como preço do barril de petróleo, câmbio, clima chuvoso ou seco. E itens com planos de saúde e remédios são pressionados por aumentos suspensos em 2020.

Os bens duráveis, afetados pela alta das commodities não alimentares e do dólar, são talvez o exemplo mais claro da piora inflacionária desde meados do ano passado.

Em 12 meses, acumulavam inflação de apenas 0,03% em agosto de 2010 e, agora, em março, na mesma leitura, já estão em 6,7%, acima da inflação total na mesma base de comparação. Os duráveis subiram 0,46% em fevereiro e 0,66% em março.

Na visão de Braz, é um grupo muito pressionado pelos custos e que, portanto, está na dependência de como evoluir a combinação entre preço de commodities não alimentares e câmbio.

Os serviços, por sua vez, continuam como a grande âncora da inflação. Depois de uma alta mais expressiva em fevereiro, de 0,55%, mas associada ao aumento sazonal das mensalidades escolares, o índice veio para 0,12% em março.

Em 12 meses, os serviços acumulam apenas 1,64% de alta. Em agosto de 2020, a mesma leitura era de 0,9%, nota Braz. Uma ligeira alta, mas ainda muito abaixo da meta e denotando que o setor continua muito sacrificado pela pandemia.

Mesmo não havendo um fechamento maciço como no lockdown do primeiro semestre do ano passado, o distanciamento social atual – mais irregular, mas ainda assim significativo, diante da fúria da segunda onda – afeta muitos negócios em serviços.

Apenas como exemplo, Braz destaca que o aluguel de veículos teve deflação de 14% em março.

Mesmo com o recuo previsto do IPCA em abril, relativamente a março, o índice acumulado vai agora caminhar para o seu pico em muito tempo. Isso ocorrerá à medida que, na conta, saiam as deflações de 0,31% e 0,38%, respectivamente, de abril e maio passados, e entrem os índices dos mesmos meses deste ano, que certamente terão inflação positiva.

Nas contas de Braz, em junho o IPCA acumulado em 12 meses deve atingir um pico entre 7,5% e 8%, antes de recuar para pouco mais de 5% no final do ano.

Ao fim e ao cabo, a inflação final de 2021 será determinada pelo preço das commodities, que é internacional; pelo câmbio, que em parte depende da redução da fragilidade fiscal; e pelo setor de serviços, que, se continuar a funcionar como âncora inflacionária, indica que a pandemia prossegue e mantém a atividade econômica como refém.

Não há ângulo muito animador nessa história.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/4/2021, sexta-feira.