Começou a pingar

Mercado na quarta-feira reagiu a temores relacionados ao vindouro aperto monetário nos Estados Unidos. O pior para o Brasil é se o Fed se perder atrás da curva no combate à inflação ascendente.

Fernando Dantas

16 de dezembro de 2021 | 11h46

O Brasil vai caminhando para um ano eleitoral de alta combustão, com o arcabouço fiscal em frangalhos, desaceleração crescente da atividade, juros em alta e desemprego em nível ainda calamitoso.

Pode piorar?

Pode. Hoje mesmo o mercado está sendo afetado pelo temor de que o aperto das condições financeiras nos Estados Unidos no próximo ano, em razão da alta dos juros para combater a inflação muito alta, venha a ser pior que o esperado.

É na veia o efeito deletério da alta de juros nos Estados Unidos e da eventual redução da liquidez internacional numa economia fiscalmente frágil como a brasileira.

O que ocorre hoje é um pequeno aperitivo do que poderá acontecer se vier a ser constatado que o Federal Reserve (Fed, BC norte-americano) se perdeu atrás da curva no controle da inflação dos Estados Unidos. Mas por enquanto isso está longe de estar claro.

Concretamente, por aqui, enquanto se aguardam ainda hoje (15/12, quarta-feira, a coluna foi escrita antes do fim da reunião do Fed) os sinais do Fed no comunicado ao fim da sua reunião final de 2021, na entrevista coletiva do chairman Jerome Powell e nos célebres “dots” (pontos) – as previsões de evolução da taxa básica, Fed Funds, pelos participantes do FOMC, o comitê que toma as decisões sobre os Fed Funds ­–, o dólar é cotado a R$ 5,72 e a maior parte da curva de juros subiu. A Bolsa tem ligeira alta no momento, mas caía mais cedo.

Essas são as cotações de quando esta coluna estava sendo fechada. Houve significativa flutuação ao longo do dia, porque o que está em boa medida movendo os ativos é justamente o disse-me-disse sobre o que o Fed vai ou não sinalizar hoje. Há outros fatores também, claro, mas o destaque parece ser a tensão pré-FOMC.

Já está nos preços, segundo Tony Volpon, estrategista-chefe de investimentos da gestora Wealth High Governance (WHG), a decisão de acelerar o tapering hoje, levando o afrouxamento quantitativo a terminar até março.

O afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) é a compra maciça e regular pelo Fed de títulos de renda fixa de longo prazo em mãos do mercado, uma forma de baixar os juros longos. O tapering é justamente a redução gradual do QE.

Como o próprio Fed vem apontando, a partir do momento em que o QE se encerrar, os Fed Funds podem começar a ser elevados do seu atual nível de praticamente zero.

‘Poder’, porém, não quer dizer ‘ter que’. Isto é, com o QE encerrado, o Fed pode elevar os juros, mas nunca disse que tem que elevar os juros assim que o QE acabar.

Aliás, como nota Volpon, na sua comunicação o Fed tem enfatizado especificamente este ponto: não confundam o momento em que Fed passa a “poder” elevar os Fed Funds com o momento em que o Fed “vai” elevar os Fed Funds.

Por outro lado, como é bem sabido, o cenário global de inflação, nos Estados Unidos e em muitas partes do mundo (Brasil com especial destaque) vem piorando. É razoável, portanto, que boa parte do mercado julgue que a propensão do Fed a apertar a política monetária também venha aumentando – tanto em termos de quão rapidamente começar a elevar os Fed Funds como até onde levar a alta.

De onde se chega à pergunta: e se o Fed já está pelo menos considerando a hipótese de começar a elevar em março?

Nesse caso, é provável que a autoridade monetária norte-americana busque dar algum sinal nesse sentido hoje, ou pelo menos busque “não dar” um sinal contrário.

Na visão de Volpon, se hoje o Fed simplesmente não enfatizar, como vem fazendo, a diferença entre o momento em que “pode elevar” e aquele em que “vai elevar”, isso já poderia ser uma forma de deixar a porta entreaberta para elevar os Fed Funds em março.

Por outro lado, iniciar o ciclo de alta dos Fed Funds em março, na segunda reunião do ano, deixa seis outras reuniões de maio a dezembro como potenciais ocasiões de elevar ainda mais. Em outras palavras, os Fed Funds podem acabar subindo em 2022 mais do que está precificado.

Por outro lado, é possível, claro, que o Fed mantenha o discurso e não alimente em nada a expectativa de que os Fed Funds possam subir em março.

São essas dúvidas que geram o nervosismo pré-FOMC, e, portanto, que mexem com os mercados globais e, em particular, com um emergente problemático como o Brasil.

Com forte risco de ser repetitivo e já com a certeza melancólica de que esse tipo de recomendação será ignorada, um mínimo de sensatez indicaria que o Brasil deve colocar a casa fiscal em ordem quando começa a pingar (deveria ser antes) e não quando a tempestade estiver quase afundando o navio.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/12/2021, quarta-feira.