Commodities e PIB brasileiro: qual o tamanho do impulso?

Commodities e PIB brasileiro: qual o tamanho do impulso?

Bráulio Borges, do Ibre/FGV e da LCA, aponta diversas indicações de que crescimento brasileiro é muito dependente do ciclo de preços das matérias-primas, mas não vê nessa constatação razões para fatalismo, pelo contrário.

Fernando Dantas

28 de julho de 2021 | 20h57

Que o Brasil é uma economia na qual as commodities são muito relevantes, ninguém discute. Longa matéria publicada ontem (26/7) pelo Financial Times discorre justamente sobre se um novo boom de commodities pode reavivar a economia brasileira. Na verdade, há analistas que já veem esse fenômeno ocorrendo.

Essa sincronia econômica com as commodities têm implicações políticas. Os economistas ainda discutem até que ponto a grande recessão de 2014-2016 pode ser atribuída ao agudo e abrupto fim do último grande ciclo de alta de matérias-primas e até que ponto a culpa é de erros de política econômica da chamada “nova matriz”.

Da mesma forma, especula-se se a atual alta das commodities configura um novo longo ciclo, com efeitos na economia. Nesse caso, o ciclo poderia ou resgatar a popularidade de Bolsonaro e torná-lo de novo um candidato muito competitivo em 2022; ou, se não houver mais tempo para isso, legar ao próximo presidente – Lula? – boas condições para governar com popularidade e se reeleger.

Mas até que ponto a cotação internacional das commodities é decisiva para o desempenho da economia brasileira?

Quando a questão é dimensionar o fenômeno, o tema se torna mais controverso entre os especialistas.

Recentemente, Bráulio Borges, economista sênior da LCA e pesquisador associado do Ibre-FGV, elaborou um gráfico (ver figura abaixo) mostrando a evolução comparada de um índice de commodities (do FMI, que exclui ouro) e o PIB a preços de mercados do Brasil. As linhas retratam a trajetória das variações trimestrais ano contra ano dos dois indicadores entre 1996 e o segundo trimestre de 2021 ( este último dado vai até maio para as commodities e, no caso do PIB, usou-se as projeções de consenso do mercado).

Como se vê, há uma notável coincidência entre a trajetória do PIB e dos preços de commodities. Borges nota que há críticas a esse tipo de exercício, porque correlação não significa causalidade e o gráfico em questão tem dois eixos, com escalas diferentes.

No caso específico da economia brasileira e das commodities, porém, o analista considera que há causalidade da segunda para a primeira, indicada por diversos estudos, além de dizer que o gráfico com dois eixos é útil para identificar o grau de comovimento de duas variáveis, também permitindo identificar, visualmente, a elasticidade de uma variável em relação à outra.

Ele acrescenta que, em box da Carta de Conjuntura do IPEA sobre o primeiro trimestre de 2021 que trata justamente do efeito do preço das commodities sobre a atividade econômica brasileira, nota-se que “o Brasil possui uma das mais altas correlações entre crescimento do PIB e crescimento das commodities, ficando atrás apenas do Peru entre os países da América Latina”.

O box do Ipea, elaborado pela economista Andreza Palma, também aponta que correlação não implica necessariamente causalidade, mas lista os diversos canais – investigados na literatura econômica – pelos quais a alta de commodities pode estimular a economia num exportador líquido de matérias primas como o Brasil.

Há, obviamente, as receitas de exportação ampliadas e os efeitos de transbordamento para outros setores da economia. Outro canal é o aumento salarial nos segmentos beneficiados. Existe também uma correlação negativa entre preços de commodities e risco País e juros, o que se dissemina para a economia como um todo.

O texto do Ipea cita um estudo de 2017 indicando que 26% da variância no spread da taxa de juros no Brasil seria explicada pela variação no preço das commodities. Há ainda o canal fiscal – que está presente hoje, com o aumento surpreendente da arrecadação vindo em boa parte de tributos ligados ao setor externo – e de expectativas.

Palma cita também investigações econométricas que encontram efeito positivo do choque de preços de commodities sobre crescimento, investimento e consumo nas principais economias emergentes.

Finalmente, o box da Carta de Conjuntura apresenta um exercício econométrico próprio de um choque de preços de commodities sobre o PIB brasileiro, encontrando um efeito positivo, estatisticamente significativo, mesmo após 15 trimestres. O choque também eleva a inflação, mas o efeito sobre os juros não é significativo.

Já um estudo do FMI de dezembro de 2020, nota Bráulio, indica que 50% da variabilidade do PIB brasileiro é explicada por choques globais.

Para o economista, reconhecer um grande papel dos ciclos de commodities no desempenho da economia brasileira não significa, de forma alguma, isentar policymakers e sucumbir ao fatalismo.

Pelo contrário, essa constatação deveria ser o ponto de partida para a construção de um arcabouço de política econômica, com destaque para a fiscal, de caráter anticíclico, para criar maior previsibilidade e estabilidade, ingredientes que podem reforçar a tendência de crescimento de longo prazo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/7/2021, terça-feira.