Como lidar com alta de alimentos?

Índice de Preços de Alimentos da FAO atingiu em março recorde absoluto, em termos reais, desde o início dos anos 60. FMI faz recomendações aos países sobre como lidar com esta alta e a dos combustíveis.

Fernando Dantas

25 de abril de 2022 | 23h25

Como noticiado no início de abril, os preços globais dos alimentos dispararam para recordes históricos na esteira da invasão da Ucrânia pela Rússia.

O Índice de Preço de Alimentos da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO, agência da ONU) atingiu em março 159,3 pontos, com um “salto gigante” – nas palavras da própria instituição – de 17,9 pontos, ou 12,6%, em relação ao fevereiro. É o nível mais alto desde janeiro de 1990, quando se inicia a série mensal.

É interessante notar, entretanto, que, em termos do custo dos alimentos, a invasão da Ucrânia foi mais uma pancada para cima numa tendência de alta forte preexistente.

Em termos reais, o Índice de Preços de Alimentos da FAO de março de 2022 foi de 155,9, também o mais elevado desde o início da série. A alta real em um ano até março/22 foi de 31,4%. Mas o relevante é que, mesmo na série em valores reais, desde outubro de 2021 o indicador transita em território de recorde histórico, tendo atingido 132,5 naquele mês.

Tomando-se a série anual, que se inicia em 1961, esse fato fica ainda mais claro. Em 2021 o índice atingiu 125,1, o valor mais alto desde 1961, superando, inclusive, o nível de 118,8 de 2011, auge do boom de commodities. Em 2022 até agora, o índice está em 142,3.

Recente artigo de economistas do FMI (Jean-Marc Fournier, Vitor Gaspar, Paulo Medas and Roberto Accioly Perrelli) analisa e faz recomendações em relação ao problema da alta dos preços dos alimentos e dos combustíveis e a reação de política econômica dos países.

Os autores observam que muitos governos, para tentar garantir a segurança alimentar e evitar turbulências sociais, tomaram medidas, incluindo subsídios, para limitar o aumento de preços de alimentos e energia.

O problema, eles acrescentam, é que essas ações podem agravar a situação fiscal dos países, já fragilizada pelos pacotes de apoio a famílias e empresas durante a pandemia (embora a alta da inflação tenha compensado em parte a piora na dinâmica das dívidas públicas).

Adicionalmente, controles de preços podem exacerbar descasamentos entre demanda e oferta de commodities, colocando ainda mais pressão nas cotações internacionais e até provocando escassez e falta de produtos.

Para “mercados emergentes e países de baixa renda enfrentando condições de financiamento difíceis e problemas de dívida”, uma categoria que o Brasil no mínimo tangencia, os economistas do FMI receitam “priorizar gastos” (evidentemente na direção dos mais pobres e expostos à alta de preços básicos) e “elevar receitas para reduzir vulnerabilidades [macroeconômicas]”.

Adicionalmente, os pesquisadores do Fundo também recomendam para países exportadores de commodities, como o Brasil, que aproveitem a bonança dos preços das matérias-primas para “reconstruir colchões de segurança”. A ideia parece ser a de fazer uma política contracíclica, aproveitando a alta da arrecadação ligada ao aumento do preço das commodities para melhorar o resultado fiscal e a dinâmica da dívida pública.

A combinação dos conselhos dos economistas do FMI para as duas categorias de países em que o Brasil se encaixa parece apontar na direção de uma política fiscal que aproveite a alta da arrecadação – que efetivamente vem ocorrendo na economia brasileira, e com intensidade que até surpreende os analistas – para reforçar tanto programas sociais bem focalizados como o resultado primário.

O que não é exatamente a receita clássica de política econômica em anos eleitorais no Brasil.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/4/2022, sexta-feira.