Como perder credibilidade

Banco Central brasileiro consegue a "proeza" de perder credibilidade anti-inflacionária mesmo quando toma decisão apoiada por vários economistas ortodoxos, como a de manter a Selic em 14,25% na última reunião do Copom. Haja comunicação malfeita!

Fernando Dantas

29 de janeiro de 2016 | 11h17

O Banco Central conseguiu a rara proeza de perder credibilidade mesmo quando tomou uma decisão de política monetária em consonância com a visão de influentes economistas ortodoxos. Não é qualquer má comunicação que tem capacidade para realizar esse feito.

Argumentos respeitáveis para interromper a alta da Selic em 14,25% não faltavam. Em breve relatório divulgado hoje sobre a ata do Copom, o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, escreve que as chances de a inflação se acelerar em 2016 são baixas em função de “um ambiente econômico depressivo, hiato do produto extraordinariamente negativo, maior nível histórico de estoques de produtos finais, menor patamar já registrado de pedidos em carteira, menor nível já visto de utilização da capacidade instalada da indústria e nível muito baixo de confiança das famílias e dos empresários”.

É uma lista capaz de enternecer o coração dos mais duros banqueiros centrais, e Barros assevera que “a economia mundial continuará deflacionária e, no Brasil, a ancoragem de expectativas virá da brutalidade do ajuste recessivo em curso”.

Outros economistas, considerados baluartes da ortodoxia, como Affonso Celso Pastore, também consideram que seria péssima ideia elevar a Selic diante de uma economia que desaba num abismo do qual até agora não se detectou o fundo.

E, no entanto, a decisão de manter a Selic reacendeu a ideia de que o Palácio do Planalto tomou novamente as rédeas da política monetária. Não se trata apenas de visão extremada da franja mais exaltada do mercado. Um gestor maduro, percebido como equilibrado e em posição de grande responsabilidade compartilhou com o colunista a convicção de que o mais recente “cavalo de pau” de Alexandre Tombini foi comandado pela presidente Dilma Rousseff.

Como explica outro gestor, que nutre a mesma visão, “é risível” alegar que, às vésperas do Copom, houve uma mudança de opinião em função de previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a economia brasileira e de informações amealhadas pelo presidente do BC, sobre os problemas na China e na economia global, durante uma reunião do Banco para Compensações Internacionais (BIS).

Como observa a fonte, não é que os principais policymakers do mundo não estejam efetivamente tateando diante das incertezas da economia global. A continuação e o ritmo da normalização monetária nos Estados Unidos voltaram a se tornar uma questão relevante, depois da manutenção ontem da taxa básica americana e, principalmente, dos sinais emitidos pelo Fed na comunicação deste fato.

“O gato da alta do juro nos Estados Unidos subiu no telhado de novo, e agora a gente não sabe mais quando nem quanto”, comentou o gestor.

O problema com o BC brasileiro, entretanto, é que os desdobramentos da economia global usados como justificativa para não elevar a Selic já vinham se anunciando desde o início de 2016 ou até antes, durante um período em que os diretores do Copom em uníssono fizeram um discurso duro sinalizando uma alta moderada da Selic neste início do ano. Até uma oportunidade de ouro para recalibrar o discurso, a carta de justificativa pelo rompimento do teto de tolerância do sistema de metas em 2015, serviu para reafirmar o discurso “hawkish”.

O economista Roberto Padovani, da Votorantim Corretora, prefere a colocação mais suave de que “a crise política limita o espaço para a política monetária”. No fundo, porém, a sensação de que as mãos do Copom podem ter sido amarradas de novo – falsa ou verdadeira – não ajuda em nada a dificílima tarefa do Banco Central. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 28/1/16, quinta-feira.

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