Como retomada americana ajuda Brasil

Fernando Dantas

14 de maio de 2014 | 17h21

O Brasil voltou a se beneficiar de um cenário externo relativamente benigno, na opinião de diversos analistas. A situação do País está longe de positiva, com baixo crescimento, alta inflação, elevado déficit externo e política fiscal deteriorada ao longo dos últimos anos. Ainda assim, os capitais estão entrando, contribuindo para estabilizar a cotação do dólar e para mitigar a curto prazo problemas no balanço de pagamentos.

Há três razões principais citadas para o momento mais tranquilo. A primeira é que houve exagero na queda dos ativos brasileiros, em comparação a outros emergentes com dificuldades similares ou até maiores. O segundo, que afeta mais a bolsa, é a melhora das chances de vitória da oposição nas eleições presidenciais – para os investidores, isso significaria tirar o torniquete de estatais como Petrobrás e Eletrobrás, importantes para o Ibovespa, e retornar a uma política econômica mais favorável ao mercado.

A terceira razão, que talvez esteja sendo menos focada, é que os Estados Unidos ingressaram num padrão de retomada que favorece o Brasil e outros emergentes. A economia americana está crescendo, mas persistem dúvidas, especialmente em relação ao mercado de trabalho, que tendem a adiar o momento em que o Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) iniciará o aumento da taxa básica de juros, os Fed Funds.

“Para o Brasil, o melhor cenário externo que poderia haver é exatamente este – seria pior se não houvesse nenhuma recuperação ou se a recuperação fosse mais intensa”, diz Monica Baumgarten de Bolle, da consultoria Galanto.

A retomada norte-americana, evidentemente, é fundamental para que o mundo saia do ritmo lento pós-crise, e beneficia todos os países. Um avanço muito rápido, porém, poderia ressuscitar as pressões inflacionárias, ou ao menos o temor delas, e antecipar e intensificar o futuro reajuste dos Fed Funds, hoje em virtualmente zero. Num cenário de economia forte e juros mais altos, os Estados Unidos reatrairiam parte dos capitais que hoje buscam os emergentes, como o Brasil, pelas taxas de retorno mais altas.

Monica nota que recente relatório do National Employment Law Project, organização de defesa de trabalhadores de baixa renda, aponta que 50% dos postos de trabalho criados na retomada americana são de baixo salário, enquanto que a parcela das perdas totais na crise deste segmento foi de apenas 20%. Em outras palavras, empregos piores estão substituindo os que existiam antes.

“Isto ajuda a explicar tanto por que a inflação permanece tão baixa, devido ao achatamento do nível geral dos salários, quanto o aumento da desigualdade, que se tornou uma preocupação central nos Estados Unidos”, analisa a economista. Para ela, não há nenhuma urgência das autoridades americanas em elevar juros.

(os dados a seguir no artigo são relativos ao dia 6/5/14, quando foi escrito)

Carlos Kawall, economista-chefe do banco J. Safra tem visão parecida, e nota que a rentabilidade dos juros do título de dez anos do Tesouro americano, que estava em 3% no início do ano, hoje está em 2,59%. A projeção mediana dos analistas para o final do ano, de 3,4%, parece muito distante da situação atual, o que ilustra a relativa calma no mercado.

Kawall nota também que a redução da volatilidade cambial no Brasil é outro fator que traz de volta o investidor externo. Esse fluxo, aliás, já arbitrou parte da gordura dos retornos no auge da insegurança em relação ao Brasil, ainda que a rentabilidade permaneça muito atraente. As NTN-Bs mais longas, que chegaram a superar 7% em juro real, estão no nível em torno de 6,3% e 6,4%. As Petrobrás PN, que chegaram ao nível de R$ 12, superaram R$ 18. No caso da bolsa, porém, Kawall frisa que a questão eleitoral pode pesar mais.

Gustavo Loyola, consultor da Tendências e ex-presidente do Banco Central (BC), enxerga um quadro muito parecido com a análise de Monica e Kawall, mas acrescenta o alerta de que “não houve uma mudança de humor mais perene em relação ao Brasil”. Como os outros economistas, Kawall destaca que não há a visão de que houve progressos nas diversas frentes conjunturais e estruturais que o Brasil enfrenta no momento.

A questão, ele continua, é que foi ficando progressivamente caro para os investidores apostarem simultaneamente contra o Brasil e a favor dos Estados Unidos – a recuperação americana ainda não é empolgante, e no Brasil juros e ações tornaram-se atraentes diante da piora acentuada – e talvez exagerada – da virada do ano.

Essa conjuntura, porém – na visão de Loyola – pode mudar muito rapidamente junto com as expectativas em relação à economia americana. E não dá para esquecer que, em algum momento do futuro, a coisa real vai acontecer, isto é, o Fed vai subir juros, com consequências potencialmente perigosas para países emergentes fragilizados.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado pela AE-News/Broadcast em 6/5/14

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