Como será a recessão?

A recessão no mundo e no Brasil provocada pelo coronavírus deve ser extremamente aguda, como muitos já preveem, embora seja difícil projetar o quanto. E cresce o número de analistas para quem a retomada pós-recessão pode ser lenta e prolongada.

Fernando Dantas

20 de março de 2020 | 17h09

De que vai ter recessão, pouca gente ainda duvida. Mas qual será a intensidade e o formato da contração provocada pelo coronavírus, no Brasil e no mundo? As estimativas de queda do produto têm variado selvagemente, como as cotações dos ativos financeiros em meio à turbulência dos mercados.

O FocusEconomics, um serviço internacional de análise e projeções econômicas cobrindo 130 países, e trabalhando com uma rede de 1.200 analistas de diversas partes do mundo, divulgou relatório ontem indicando uma piora nos prognósticos sobre a intensidade e a duração da crise.

Em uma semana, o número de analistas que espera uma recessão global nos próximos 12 meses saltou de 43% para 64%, mesmo com as maciças políticas de apoio monetário e fiscal lançadas não só nas principais economias, mas em muitos outros países.

Segundo Janwillem Acket, economista chefe do Julius Baer, grupo financeiro suíço, o fato de que o choque do coronavírus é exógeno (isto é, vindo de fora do sistema econômico) e atinge ao mesmo tempo a demanda e a oferta e, em seguida, os mercados financeiros, faz do evento algo único na história recente. O choque da crise global de 2008, ele nota, foi em sentido inverso, atingindo o mercado financeiro e daí se propagando para a economia real.

Segundo Acket, o choque do coronavírus “só pode ser comparado às contrações em tempos de guerra do século XXI”.

Dos economistas consultados, 1/3 prevê que o choque do COVID-19 reduza o crescimento do PIB global em 1,5 ponto porcentual (pp) ou mais.

Para Gunter Deuber, economista-chefe do Raiffeisen Bank (austríaco), o mergulho dos serviços e do consumo na Europa vai ser muito mais forte do que na crise financeira global ou na crise da zona do euro que se seguiu (a partir de 2010). O analista prevê uma contração de 7,5% no PIB da zona do euro no segundo trimestre deste ano.

Metade dos economistas consultados pelo FocusEconomics preveem que a recessão global vai durar dois meses, e 23% projetam que a duração será de três meses.

Um aspecto particularmente preocupante é que 52% consideram que a retomada, após a recessão, será lenta e prolongada, em “U”, na linguagem dos economistas, com a minoria prevendo uma recuperação rápida ou intensa, em “V”.

Adicionalmente, uma parcela de 55% dos economistas consultados vê os efeitos adversos do coronavírus se prolongando para além de 2020.

As economias que devem ser mais afetadas, segundo os analistas, são, em ordem decrescente, Itália, China, Irã e Estados Unidos. Nesse caso, porém, pode haver alguma defasagem de percepção, dada a velocidade altíssima com que a crise cresce e se transforma. Há poucos dias, esses países dominavam o noticiário, mas agora vários outros, como a Espanha, estão entrando no grupo dos mais afetados.

Alguns economistas ouvidos apontam pequenos sinais de luz no fim do túnel, como o fato de que a China conseguiu reduzir fortemente o número de casos, numa abordagem da crise que em tese poderia servir para o aprendizado de outros países que enfrentam agora (ou enfrentarão em breve) o auge da pandemia.

Na prática, entretanto, o que se vê é uma grande diferença na eficácia das abordagens dos diversos países, sendo particularmente preocupante que os Estados Unidos, principal centro da economia global, parece ter errado muito no momento decisivo do início da pandemia no país (a China também errou nesta fase, mas com uma reviravolta de medidas duríssimas que talvez não seja possíveis numa democracia ocidental sem uma tradição de estatismo coletivista como a chinesa).

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/3/2020, quinta-feira.