Como será o debate econômico eleitoral?

Há uma espécie de “nova síntese” de economistas de centro-esquerda que, reconhecendo equívocos de Dilma, ainda assim identificam excessos de ortodoxia a partir de 2016, e veem espaço para um rebalanceamento.

Fernando Dantas

15 de fevereiro de 2022 | 22h42

É inevitável que, quando o assunto for economia na campanha eleitoral deste ano, dois períodos distintos de política econômica sejam discutidos.

O primeiro vai de 2003 a maio de 2016, com o PT no poder. Como se sabe, a política econômica variou muito nesse período mas, na simplificação do calor eleitoral, é por essa fase que Lula terá que responder.

O segundo período vai de 2016 ao presente. Embora englobe dois presidentes (Temer e Bolsonaro), a política econômica nessa fase, com níveis bem diferentes de competência, seguiu um figurino centrista e liberal que forma um polo claro do debate no Brasil.

É bem possível que a atenção do público ao debate se concentre em etapas mais recentes. A experiência tucana até 2002 e o período petista liberal de Palocci até 2006, em que pese o destaque recebido na discussão de especialistas, já estão meio fora do alcance da memória do eleitorado.

No entanto, o mesmo não pode ser dito da fase de ouro de resultados econômicos e sociais do petismo, de 2006 a 2010, seguida de um período de ansiedade entre 2011 e 2014 – em que o mercado de trabalho ainda brilhava, mas a economia desacelerava e a cobrança de bens públicos estourava nas ruas em 2013 – e a débâcle de 2015 e 2016.

Tampouco terá como fugir do escrutínio popular a etapa iniciada em 2016, com as esperanças alimentadas de que o impeachment de Dilma traria em enfim uma nova bonança econômica. O que se seguiu foi um duro ajuste, com a realização de reformas importantes, como a da Previdência, mas que desaguaram em crescimento pífio. Depois veio o caos bolsonarista, a pandemia  e chega-se ao presente de alta inflação, alto desemprego e atividade quase parada.

A cara do debate econômico da campanha já está meio delineada. Lula acenará com a volta dos tempos de ouro do seu governo, e seus adversários lembrarão o desastre econômico de 2015-16, com ênfase na corrupção como causa.

Bolsonaro, Doria e Moro não terão muito como fugir da proposição de programas parecidos em espírito à política econômica que vigora desde 2016. Doria e Moro tentarão atribuir os maus resultados à incompetência da dupla Bolsonaro-Guedes, enquanto Bolsonaro vai usar a desculpa da pandemia.

Ciro vai correr por fora tentando criticar tudo e todos, mas no fundo suas proposições se assemelham à nova matriz do final do final de Lula e período de Dilma.

O pano de fundo de todo esse debate será “o que deu errado com a economia brasileira e de quem é a culpa?”

Essa questão já vem sendo intensamente discutida por alguns economistas e será interessante observar como vai se traduzir para o público muito mais amplo do eleitorado nacional.

Nenhum economista sério põe em dúvida que o fim do boom de commodities, por volta de 2011-12, deflagrou uma fase de grandes dificuldades para várias economias latino-americanas dependentes de matérias-primas, como o Brasil.

Economistas liberais críticos do PT, entretanto, consideram que os erros de excesso de intervencionismo e descaso fiscal da nova matriz ampliaram muito o efeito do fim do boom no Brasil, levando ao desastre de 2015 e 2016.

O problema é que o mau desempenho continua até hoje. Ninguém poderia esperar menos do que uma forte queda do PIB em 2020, auge dos efeitos econômicos da Covid, assim como houve retomada robusta em 2021. Mas as perspectivas de crescimento próximas de zero em 2022 remetem ao marasmo de 2017 a 2019. Ainda dá para culpar a nova matriz?

Para economistas mais inclinados ao campo heterodoxo, mesmos os moderados, não dá. Se houve sérios erros na nova matriz, a política econômica de Temer também teria falhado pela demora em derrubar os juros e por um ajuste fiscal e parafiscal (BNDES) drástico demais.

Essa discussão tem sérias implicações para o que será feito a partir de 2023. É pouco provável que a implantação pura e simples de políticas que signifiquem a reedição da nova matriz venha a prevalecer.

Mas há uma espécie de “nova síntese” de economistas de centro-esquerda que, reconhecendo equívocos de Dilma, ainda assim identificam excessos de ortodoxia a partir de 2016, e veem espaço para um rebalanceamento – alguma retomada do investimento público e expansão fiscal para estimular a demanda, mas com a repaginação de uma âncora fiscal de médio e longo prazo; atenção para possibilidades de política industrial, mas de forma mais cautelosa do que o festival de desonerações e subsídios para “campeões nacionais” da nova matriz.

Do outro lado, pelo que se vê até agora de Guedes (mais na teoria do que na prática) e dos conselheiros econômicos de Moro e Doria, estarão os liberais insistindo em que o caminho pós-2016 é o correto, mas foi prejudicado por lacunas (cadê a abertura comercial?), incompetência e caos político.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/02/2022, segunda-feira.