Bandeiras incongruentes

Em seu discurso na ONU, Bolsonaro reafirmou as duas pernas da sua estranha salada ideológica: a teoria conspiratória sobre o "socialismo globalista" e a agenda de liberalismo econômico.

Fernando Dantas

26 de setembro de 2019 | 07h57

O discurso de Bolsonaro ontem na ONU, em que pese a má repercussão da sua retórica agressiva, teve o mérito de ser uma das descrições mais fiéis até agora da estranha salada ideológica encarnada pelo presidente brasileiro.

O bolsonarismo recuperou o prestígio da palavra “direita” no Brasil, que hoje é orgulhosamente usada por muita gente para se autoclassificar em termos políticos. Não foi assim durante a maior parte do período pós-redemocratização, durante o qual políticos e agremiações de centro-direita e direita procuravam disfarçar esta condição, inclusive apelando para nomes patéticos como “Partido Progressista”.

A questão, porém, é saber o que significa “direita” para a tribo política do atual presidente brasileiro. O pronunciamento da ONU ajuda a responder essa questão.

Um primeiro estranhamento do discurso é Bolsonaro ter dito que o Brasil na era PT esteve muito próximo do “socialismo”.

O conceito aí empregado é amplo e, sem necessariamente as excluir, difere das principais concepções de socialismo: seja o “real”, como o das ditaduras soviética e da Cortina de Ferro, com estatização quase total da economia; seja da socialdemocracia distributiva, típica da Escandinávia.

O socialismo de que fala Bolsonaro, reverberando ideias de ideólogos obscuros e marginais até há poucos anos, como Olavo de Carvalho, é quase uma forma de ser. Trata-se de usar cinicamente a bandeira da justiça social para perverter o pensamento, a ética, a lei, os bons costumes, a política, a economia etc.

Dessa forma, entendem-se os ataques no discurso à ideologia que “se instalou no terreno da cultura, da educação e da mídia, dominando meios de comunicação, universidades e escolas”; e “invadiu nossos lares (…) e a própria alma humana para dela expulsar Deus (…)”.

Nessa visão, a principal manifestação histórica do “socialismo” foi o marxismo e os comunismos soviético e chinês, com seus respectivos satélites. Porém, independentemente da organização econômica, o socialismo seria um vírus de perversão do pensamento e do comportamento humanos e da ordem social, que se manifesta de múltiplas formas, sendo os seus agentes sempre aliados, seja explícita ou implicitamente.

Assim, Bolsonaro de maneira mais compreensível atacou Cuba e Venezuela como socialistas. Porém, no sentido amplo do termo – e combinado com o outro grande inimigo, o globalismo –, pode-se incluir o Brasil de Lula, o Foro de São Paulo (organização de partidos e movimentos de esquerda da América Latina), a China contemporânea com todos as suas empresas privadas e bilionários, a ONU (também atacada no discurso) etc.

Essa visão do mundo coloca conservadores e patriotas como heroicos resistentes frente a uma poderosa conspiração de globalistas socialistas que, além do desejo de destruir a soberania das nações, tenta insidiosamente minar os fundamentos morais do cidadão comum, por meio do proselitismo antirreligioso, ateu, pró-aborto, da “ideologia de gênero” etc.

Nessa narrativa tão fantasiosa quanto grandiosa, faz sentido Bolsonaro resgatar, como fez na ONU, o golpe militar de 1964, que teria barrado o “socialismo” no Brasil. Seja o golpe, seja sua vitória eleitoral em 2018, é a mesma luta contra o mesmo inimigo, apenas com máscaras diferentes.

O mais curioso, porém, é que o bolsonarismo acopla essa versão distorcida ao extremo do conservadorismo à agenda econômica liberal, esta sim uma concepção de centro-direita ou direita – a depender da calibragem – mais normal e reconhecível.

Assim, o discurso da ONU trouxe também a defesa da liberdade econômica, das privatizações e do livre mercado, da responsabilidade fiscal, da abertura comercial, da gestão eficiente e dos ganhos de produtividade.

Na seara ambiental, a mais aguardada pela comunidade internacional, o pronunciamento de Bolsonaro foi mais previsível, contestando a piora da devastação da Amazônia no seu governo ao mesmo tempo em que lançou mão da carta da “soberania ameaçada” para atacar outros países e a ideologia globalista.

No discurso da ONU, Bolsonaro deixou claro que mantém compromisso firme com as duas pernas, inteiramente diferentes e incongruentes, da sua concepção de direita: a ideologia bizarra, irracional e conspiratória da luta contra o socialismo globalista, de um lado; e a agenda muito mais convencional do liberalismo econômico, do outro. A vida permanecerá difícil para quem gosta de uma coisa, mas não da outra.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/9/19, quarta-feira.