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Comunicação do BC na berlinda

Há críticas do mercado à qualidade da comunicação do BC recentemente. Mas o tema é complexo, e nem todos fazem reparos.

Fernando Dantas

03 de janeiro de 2020 | 10h05

O último dado do Caged, relativo a novembro, indicou que de fato a economia está ganhando tração. Por outro lado, a Selic de 4,5% está abaixo de 1% em termos reais, a se tomar a projeção do Ibre/FGV de inflação para 2020, de 3,9%. Pelos padrões históricos, um estímulo maciço foi introduzido pelo BC, particularmente neste último ano.

Mas a forma como a economia reage aos estímulos monetários num contexto macroeconômico totalmente novo para  o Brasil é naturalmente incerta. Houve uma mudança em relação aos padrões históricos.

Num momento de tantas dúvidas, é natural que a comunicação do BC com o mercado fique mais difícil e truncada. E críticas vêm sendo feito por alguns participantes do mercado.

Segundo um gestor de recursos do Rio, parte da recente alta da curva de juros decorre diretamente dos melhores sinais da economia, e da menor necessidade de se continuar reduzindo os juros. Mas alguma volatilidade adicional pode estar acontecendo em decorrência da comunicação do BC.

“O mercado anda meio confuso”, ele diz.

O BC comunicou-se muito nas últimas duas semanas. Houve o comunicado da decisão do Copom, a ata do Copom, a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação do último trimestre, e a entrevista do presidente do BC, Roberto Campos Neto, que acompanhou a divulgação do RTI (o diretor de Política Econômica, Fabio Kanckzuk, também falou). Adicionalmente, Campos Neto foi entrevistado pela jornalista Andréia Sadi, para a GloboNews.

As queixas são de que, ao longo de todas essas ocasiões de mostrar o que pensa, a mensagem do BC variou muito, ora ficando um pouco mais hawkish (preocupada com a inflação), ora um pouco menos.

Há um problema na base dessa discussão, que é o de que as projeções da inflação no modelo do BC, segundo uma linha comum de interpretação, indicam que haveria espaço para mais algum corte da Selic. Mas o discurso do Banco Central, ao enfatizar a cautela, sugere que talvez não haja.

Segundo a visão do gestor acima, essa discrepância não é um problema em si. O modelo do BC trabalha com hipóteses sobre a trajetória de variáveis chave, como câmbio e a própria Selic. Mas há também o chamado “balanço de riscos”. As variáveis relevantes para a determinação da inflação podem se mover de forma muito diferente da previsão do mercado, ou da hipótese em que ficariam constantes, usadas nos cenários do modelo.

A impressão do gestor é de que o BC está dando um pouco menos de peso às projeções e um pouco mais ao balanço de riscos.

“O problema”, diz, “é que eles poderiam deixar isto mais claro, o que não estão fazendo”.

Ele considera ainda que o BC poderia ser mais claro também sobre o balanço de riscos estar assimétrico para um lado ou para o outro (isto é, no sentido de a inflação ser mais alta ou mais baixa), e sobre quais fatores considera mais importantes de acompanhar para monitorar esta questão.

“Está difícil saber o peso que o Copom está dando aos diferentes fatores”, acrescenta o gestor.

Isto, por sua vez, ao aumentar a volatilidade, pode estar elevando os prêmios embutidos nas taxas de juros.

Já um conhecido analista do mercado financeiro considera que o BC decidiu recentemente dar ênfase a uma medida “nova” de atividade. Basicamente, trata-se de saber como a atividade é afetada pelo crescimento do crédito na atual fase do ciclo econômico.

“O BC escolheu deliberadamente falar desse tema, mesmo com as projeções de inflação muito baixas”, diz o economista.

Com isso, adicionou-se um grau maior de incerteza às projeções, porque é preciso saber também qual vai ser a expansão do crédito em reação à queda dos juros. E este é um efeito que pode tomar mais tempo tanto para se medir como na sua própria duração.

“Não é como o choque das carnes”, nota o analista.

Isso, por sua vez, leva-o a crer que o Copom será muito cauteloso daqui em diante. Se o cenário (em termos de inflação) melhorar em relação ao câmbio e ao choque de preços até a próxima reunião em fevereiro, e se a atividade ficar morna, pode haver novo corte da Selic. Nesse caso, o modelo daria amparo à decisão.

Mas  se o cenário inflacionário não melhorar, ele acha que, mesmo com projeções favoráveis, o BC vai esperar para ver, e encerrar o ciclo temporariamente em 4,5%, nível atual.

“Não estamos muito acostumados no Brasil a essas pausas para avaliação porque os juros são muito altos, mas em 4,5% é absolutamente normal o BC dá uma interrompida para buscar uma sintonia fina”, ele diz.

Já para o economista Silvio Campos Neto, sócio da consultoria Tendências, “estamos num cenário inédito, de muita incerteza para o BC, e é por isso que ele deixou a porta aberta para qualquer decisão em fevereiro”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/12/19, sexta-feira.

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