O comunicado do Copom

Analistas previram que comunicado da reunião do Copom terminada hoje (coluna foi escrita antes da decisão) sinalizaria flexibilidade para o BC fazer ou não mais uma alta da Selic em setembro. Comunicado confirmou essa projeção, mas foi interpretado pelo mercado como mais para o lado dovish.

Fernando Dantas

03 de agosto de 2022 | 20h37

O mercado espera uma elevação de 0,5 ponto porcentual (pp) da Selic hoje (3/8), para 13,75%. A questão relevante é o que o Banco Central (BC) vai comunicar e o que esperar no período pós-Copom.

[a coluna foi escrita antes da decisão do Copom]

Analistas ouvidos por essa coluna pensam que  o Copom vai optar por uma estratégia intermediária entre sinalizar o encerramento do ciclo de alta ao fim da reunião de hoje e deixar “encomendado” de maneira mais rígida uma elevação no próximo encontro, em 20 e 21 de setembro.

“Sinto que eles querem parar há algumas reuniões, mas penso que vão deixar a porta aberta para mais uma elevação, por causa de fatores como o IPCA ainda salgado, os juros em alta lá fora, o câmbio depreciado E o Focus [projeção de inflação do mercado] mais desancorado para o ano que vem”, diz Tony Volpon, estrategista-chefe da Wealth High Governance (WHG) e ex-diretor do BC.

O analista vê o Copom a reboque dos desdobramentos nessas frentes problemáticas. Se nos quase 50 dias entre esta e a próxima reunião não houver novidades negativas relevantes, o BC não elevaria de novo a Selic, encerrando o atual ciclo nos 13,75% a que a taxa básica chegará pela decisão de hoje. Se o cenário oposto ocorrer, é possível mais um aumento em setembro.

Volpon nota que está “mudando um pouco de cabeça” em relação ao que considera correto na política monetária no Brasil na atual conjuntura. Ele achava que já estava chegando a hora de “parar para deixar a política monetária com suas defasagens funcionar”.

Agora, porém, a atividade vem se revelando bem mais forte do que as projeções de até alguns meses atrás, o mercado de trabalho está apertado, há um impulso fiscal ligado às eleições muito forte e a inflação permanece muito pressionada.

Considerando esse conjunto de fatos, Volpon considera que talvez valha a pena o BC ser “um pouquinho conservador e deixar a porta aberta para comprar um seguro [contra novas surpresas negativas em termos de inflação] levando a Selic um pouco acima de 14%”.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP no Rio, também pensa que o Copom deve divulgar um comunicado que dê ao BC flexibilidade para subir novamente a Selic ou parar em setembro. Como Volpon e a maior parte do mercado, ele projeta aumento de 0,5pp hoje.

Segundo Rocha, o comunicado mais ‘hawkish’, isto é, mais duro em termos de postura anti-inflacionária, provavelmente repetiria a frase “para a próxima reunião, o Comitê antevê um novo ajuste, de igual ou menor magnitude”, que faz parte do último, relativo a reunião de junho.

O cenário mais “dovish” (o contrário de “hawkish”) seria um comunicado que dissesse que a prevista alta de hoje seria a última, salvo ocorrências muito extraordinárias.

No cenário intermediário, no qual Rocha aposta, o Copom poderia tentar uma forma na linha do “é possível um ajuste de igual ou menor magnitude”, mantendo a porta aberta para fazer ou não fazer. Obviamente, há outras formas de comunicar a mesma mensagem.

Entre os fatores hoje favoráveis ao BC, o economista cita inflação mais baixa em alguns bens industriais no IPCA , IGPs mais baixos e sinais de resfriamento externos também atingindo em particular preços industriais. Mas ele ressalva que, especialmente em termos de reflexos no Brasil, é um movimento ainda bastante incipiente.

O recuo recente do petróleo e de commodities industriais também ajuda o BC.

Pelo lado desfavorável, há os núcleos inflacionários e a inflação de serviços elevados, a atividade forte, a queda da taxa de desemprego e até sinais de salários subindo.

Embora pessoalmente penda para a visão que dá um pouco mais de peso no momento aos fatores favoráveis, Rocha considera que “vale a pena ganhar graus de liberdade e eu [em termos de comunicado] optaria pela fórmula intermediária”.

Além de muita volatilidade e incerteza, o economista frisa que talvez seja interessante para o Banco Central que a curva de juros não caia muito, o que poderia ocorrer se o mercado tivesse uma surpresa “dovish” agora. Ele lembra que a curva, com juros de cerca de 12,5% nos vencimentos de janeiro de 2025 e 2026, já está negativamente inclinada há algum tempo.

Em termos do impacto da área fiscal na política monetária, Rocha projeta um 2023 expansionista considerando apenas o impacto de pouco mais de 1% do PIB do aumento do Auxílio Brasil para R$ 600 (que crê será mantido pelo vencedor as eleições no ano que vem), com ampliação do público receptor. Qualquer concessão em termos de salário nominal de servidores ou salário mínimo real pioraria ainda mais esse quadro.

Dessa forma, o economista projeta IPCA de 7% este ano e de 6% em 2023, com três anos consecutivos de estouro do teto de tolerância da meta. Mesmo que haja muitas razões para isso que não dependem do BC, como a Covid e a guerra da Ucrânia, o economista frisa que estourar tanto a meta por tanto tempo num país com alta indexação é preocupante – o que recomenda certo conservadorismo do Copom.

Volpon, por sua vez, na questão fiscal especificamente, tende a ver certo excesso de pessimismo de analistas baseados no Brasil (nenhuma referência específica ao que Rocha disse).

Volpon projeta o cenário de ganhos de arrecadação como mais duradouro, já que pensa que o mundo pode de fato estar no início de um ciclo mais consistente de alta das commodities, favoráveis à receita no Brasil.

Frisando que não apoia a forma eleitoral de uso desse extra de recursos públicos, ele considera que um novo governo, com quatro anos pela frente, pode rearranjar a utilização dos ganhos de arrecadação, aperfeiçoando as transferências sociais, ampliando investimentos e reduzindo – ou na melhor das hipóteses – zerando o déficit primário.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/8/2022, quarta-feira.