Conservadorismo no BC, FMI no apoio

No 17º Seminário de Metas de Inflação, Tombini do BC reafirma nova postura conservadora e Lagarde do FMI apoia ajuste no Brasil.

Fernando Dantas

26 Maio 2015 | 10h53

Na décima-sétima edição do seminário de Metas de Inflação do Banco Central, marcada pelo apoio da palestrante Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, ao ajuste em curso na economia brasileira, o presidente do BC, Alexandre Tombini encerrou o encontro na sexta-feira, 22/5/15, no hotel Sofitel, no Rio, reafirmando a nova postura “hawkish” (conservadora) da autoridade monetária. O encontrou iniciou-se na quinta, 21/5.

“Acho que ele contratou (um aumento de) cinquenta (pontos base, meio ponto porcentual) para a próxima reunião, e mencionou ao final que os objetivos serão cumpridos com determinação e perseverança – acredito que a mensagem a partir do momento em que eles pararem (de subir a taxa Selic) vai ser de que a política monetária vai ser perseverante”, comentou, logo após o discurso, Alexandre Ázara, economista-chefe da gestora Modal.

Ázara prevê que, após aumentar 0,5 ponto porcentual na reunião do Copom do início de junho, o BC deve elevar a Selic em 0,25 no encontro do final de julho. “E acho que, se for diferente, é mais provável que aumente novamente em 0,5 do que não aumente – então 14,25% é mais provável do que 13,75%, mas deve ser 14%”, acrescentou o analista. E, na sua visão, o BC só deve iniciar um movimento de queda após março de 2016.

Para outro respeitado analista, o pronunciamento de Tombini hoje não acrescentou nada, e apenas manteve a postura hawkish dos últimos meses. Um comentário corrente entre os profissionais do mercado financeiro, e ouvido durante o seminário de metas de inflação, é que o BC tem se mantido firme – tanto na comunicação quanto nos atos – na nova postura de maior rigor anti-inflacionário desde outubro, quanto a atual etapa de aperto monetário se iniciou.

“Esse novo Banco Central não surpreendeu nem uma vez pelo lado ‘dovish’ (menos conservador), e quem apostou nessa possibilidade em dezembro, janeiro, março e abril (reuniões do Copom depois de outubro) perdeu dinheiro”, comentou um analista presente.

A presença de Lagarde, do FMI, e seu discurso de forte apoio ao atual ajuste da economia brasileira criaram o pano de fundo adequado para a nota final de reafirmação do conservadorismo por parte de Tombini.

A diretora-gerente do Fundo afirmou que, no momento atual da economia brasileira e latino-americana – afetadas por um ambiente internacional mais adverso, com desaceleração de parceiros comerciais e queda do preço das commodities –, o caminho para recuperar o crescimento passa mais pela oferta do que pela demanda. Ela inclusive comentou que novos impulsos à demanda poderiam comprometer a recuperação da credibilidade.

São palavras de respaldo à visão ortodoxa do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e fazem flagrante contraste com as políticas de incentivo à demanda que caracterizaram a gestão anterior de Guido Mantega, mesmo quando o impacto inicial da crise global de 2008 e 2009 já havia sido neutralizado.

Para Lagarde, as metas de superávit primário de 1,2% em 2015 e 2% em 2016 representam uma estratégia “gradual, mas significativa” para recuperação a confiança e acelerar o crescimento. Ela observou ainda que o aperto monetário iniciado no final do ano passado será suficiente para que a inflação volte para dentro da banda da meta em 2016, “e não próximo do topo, mas convergindo para o centro daí em diante”.

A diretora-gerente destacou três pontos para uma agenda de crescimento pós-ajuste no Brasil: enfrentar os gargalos de infraestrutura, fazer a reforma tributária e aumentar a abertura comercial. (fernando.dantas@estadao.com)           

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 22/5/15, sexta-feira.