Consumo enfraquece, investimento não chegou

Fernando Dantas

04 de junho de 2014 | 10h32

Para o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, os números do PIB do primeiro trimestre e os indicadores já divulgados do segundo indicam um crescimento de apenas 1% em 2014, e inferior a 2% no próximo ano. O enfraquecimento pode ser notado no consumo, no investimento, na indústria, no varejo e na queda dos índices de confiança. Para ele, há um componente de incerteza eleitoral na freada, que pode ser revertido em 2015 – mesmo que isso aconteça, ressalva, não será o suficiente para impulsionar a economia além de 2% no próximo ano.

Na verdade, Goldfajn vê o fim de um ciclo de expansão do PIB brasileiro impulsionado por reformas que aumentaram a produtividade durante o governo Lula e termos de troca favoráveis. Agora, o Brasil transita de um modelo baseado no consumo para outro baseado no investimento. O problema é que o consumo está se retraindo e o investimento ainda não entrou em campo para compensar. Para impulsionar a economia de novo, é preciso retomar reformas ou encontrar novas fontes de crescimento.

Pelo lado positivo, o economista vê alguma chance de que a forte desaceleração em 2014 faça a inflação de serviços cair mais rápido, o que poderia levar o IPCA para perto de 6%, e não de 6,5% no final do ano. Mas este ainda não é seu cenário principal. A seguir, a entrevista:

 

O que o sr. achou da divulgação do PIB?

O primeiro trimestre veio bem próximo das nossas projeções, com a alta de 0,2% ante o trimestre anterior. Pelo lado da oferta, um dos destaques foi a queda da indústria. Pela demanda, a desaceleração do consumo das famílias e a queda do investimento. O consumo do governo acabou sendo o fator mais positivo, mas isso não é sustentável. Por outro lado, a revisão do ano passado mostrou um desempenho um pouco melhor, de 2,5%. Mas em 2014 estamos caminhando agora para um crescimento em torno de 1%.

E 2015?

Nossa projeção é de 2%, mas vamos reduzi-la. Com o número mais baixo em 2014, cai o chamado carregamento estatístico para o próximo ano. Além disso, não dá para enxergar em 2015 nenhum estímulo expansionista da política fiscal ou monetária, ao contrário. Bem, é possível que, passadas as indefinições eleitorais, possa haver uma melhora da confiança que afete positivamente o investimento. Mas mesmo isso não seria suficiente para fazer o crescimento chegar a 2%, de acordo com a nossa percepção no momento.

Qual a visão para o segundo trimestre?

Está surpreendendo negativamente, e a indicação é de um PIB negativo. A fraqueza vem do investimento e do consumo e, pelo lado da oferta, da indústria. Os índices de confiança de empresários e consumidores estão nos níveis mais baixos desde a crise de 2008 e 2009. Os números mais recentes de criação de empregos formais do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho) também foram fracos, assim como as vendas de supermercados e de veículos.

A economia brasileira não está passando por nenhuma grande crise. Por que o desempenho do PIB está tão fraco?

Tanto o consumo quanto o investimento estão piorando. O investimento deve permanecer fraco o ano todo. Em função das eleições, há uma sensação de indefinição, o que leva as empresas a postergar investimentos e esperar que a situação fique mais clara. A verdade é que a economia brasileira está num processo de rebalanceamento, em que o investimento deve substituir o consumo na liderança do crescimento. O problema é que a perna do consumo está perdendo força sem que a do investimento se fortaleça por enquanto. Então há certa defasagem, um hiato, que segura a expansão da economia. A massa salarial, que é a combinação do emprego com o salário, já não cresce como antes, o que afeta os bens de consumo. É um momento em que a indústria de bens de capital, ou os setores ligados à construção, enfim, os componentes do investimento, deveriam estar acelerando, mas ainda não se percebe isso.

O governo, no entanto, tomou uma série de medidas de estímulo, como as isenções tributárias. Por que não estão funcionando?

É que a restrição está no lado da oferta, e esses estímulos só estão pegando o lado da demanda. O problema da oferta se vê no custo Brasil, que se tornou extremamente elevado por várias razões: complexidade tributária e burocrática que afeta a vida empresarial, o custo elevado da mão de obra que não foi acompanhado pela produtividade. É uma combinação que impede a oferta de acompanhar a demanda. Neste caso, mais demanda acaba virando mais inflação.

Por falar nisso, também é curioso que a inflação esteja alta com uma economia tão desaquecida.

A inflação é determinada por vários fatores, ligados à demanda, à oferta e aos preços administrados. O aumento dos alimentos, por exemplo, é um problema de oferta, mas que deve voltar ao longo do ano. Já a inflação de serviços está ligada à demanda e ao ritmo da atividade, mas vem cedendo muito devagar. Por outro lado, há os preços administrados subindo, como a energia elétrica, que já teve aumentos. Espera-se um aumento da gasolina no final do ano ou em 2015. Quem olha a inflação nos próximos 12 meses, computa a alta dos preços administrados. Assim, respondendo à sua pergunta, eu diria que se a atividade não tivesse caído de ritmo, a inflação poderia estar ainda pior. E há até a possibilidade de que esse desaquecimento forte faça com que a inflação de serviços caia mais forte do que o ocorrido até agora, o que poderia levar a inflação total mais para perto de 6%, e não dos 6,5% que estão sendo previstos em 2014. Ainda assim, para que a inflação volte a convergir para o centro da meta, terá que haver mais ajuste da política monetária no futuro.

Como o Brasil pode voltar a crescer a um ritmo mais adequado a uma economia emergente?

Como notei, a queda do consumo está ligada a uma expansão da renda que já não se dá ao ritmo dos últimos dez anos. Nessa fase positiva, o aumento da renda teve a ver com a realização de reformas que aceleraram o crescimento da produtividade e com termos de troca favoráveis ao Brasil. Agora, esse impulso se esgotou. Precisamos de mais reformas e mais investimento para crescer. Ou de qualquer outra que entre no lugar do impulso que já terminou.

Fernando Dantas (fernando.dantas@estadao.com)

Esta entrevista foi publicada pela AE-News/Broadcast em 30/5/2014, segunda-feira.

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