Contestação não é patrulha

Jornalista Elio Gaspari afirmou que André Lara Resende está sendo patrulhado por levantar debate sobre a política monetária e os altos juros no Brasil. Mas não há nenhuma patrulha, e sim um debate de alto nível em que Lara Resende vem sendo tratado com muito respeito.

Fernando Dantas

08 de fevereiro de 2017 | 19h46

Em artigo publicado hoje nos jornais O Globo e Folha de São Paulo, o jornalista Elio Gaspari diz que o economista André Lara Resende está sendo “patrulhado” em função da discussão que levantou sobre os altos juros reais no Brasil. Lara Resende apontou literatura recente relativa ao “neofisherismo” e à teoria fiscal do nível de preços como indicação de que a relação entre juros altos e inflação pode ser o contrário (no longo prazo) do que o “conservadorismo intelectual” julga: na verdade, os juros elevados aumentariam a inflação ao invés de diminuí-la.

A discussão é extremamente complexa, a começar por se saber se está se falando de juros reais elevados (a verdadeira jabuticaba brasileira) ou de juros nominais muito altos, o que aparentemente é o foco da investigação neofisheriana.

Uma coisa, porém, é certa: raramente a sugestão de aplicação ao caso brasileiro de uma ideia tão na fronteira de uma quase esotérica discussão acadêmica foi tão levada a sério e tão denodadamente debatida como no caso dos dois artigos de Lara Resende.

Diversas densas respostas a Lara Resende foram publicadas por diferentes veículos de comunicação. No Broadcast, Carlos Kawall, economista chefe do Banco Safra, fez a distinção – citando o prestigiado Olivier Blanchard – entre modelos teóricos e modelos de políticas econômicas, além de lembrar a exitosa política monetária do atual BC brasileiro, em linha com os modelos neokeynesianos e com o mainstream (corrente principal) do pensamento econômico atual. Já na revista EU & Fim de Semana, do jornal Valor, o mesmo local em que Lara Resende fez suas intervenções, foram publicados dois artigos de resposta, o primeiro dos economistas Samuel Pessôa e Marcos Lisboa, e o outro de Eduardo Loyo. Todos os artigos citados acima mencionaram expressamente André Lara Resende, polemizando de forma respeitosa.

Esses artigos de resposta não foram de forma alguma peças levianas de patrulhamento. Pelo contrário, boa parte dos economistas citados acima deve ter lido previamente o artigo acadêmico de dezembro de 2016 do economista norte-americano John Cochrane, com 157 páginas (ou 113, excluindo a bibliografia e os anexos) e repleto de fórmulas matemáticas, e que leva o singelo nome de “Michelson-Morley, Occam and Fisher: The Radical Implications of Stable Inflation at Near-Zero Interest Rates”. O artigo de Cochrane é uma espécie de pivô do debate acadêmico sobre o tema, e, mesmo para economistas bem treinados, é uma peça de pesada digestão.

Na verdade, as ponderações de Lara Resende sobre a taxa de juros brasileira provavelmente receberam tanta atenção exatamente pelo fato de o autor se tratar de quem é: um economista de grande prestígio, e o formulador, junto com Persio Arida, das ideias que deram base ao Plano Real. Em vez de patrulhamento, o que se viu foi a eclosão de um debate extremamente demandante de energia intelectual por parte de alguns dos mais capacitados economistas brasileiros na ativa.

Restam, portanto, alguns adjetivos como “atalho” aplicados direta ou indiretamente às ideias de Lara Resende, que de fato têm conotação pejorativa, mas são em tudo equivalentes ao “conservadorismo intelectual” pespegado por Lara Resende nos que defendem a visão “mainstream” da política monetária como, por exemplo, a quase totalidade dos bancos centrais do mundo.

Ora, debates sobre temas de grande relevância para a vida em sociedade – basta ver a devastação socioeconômica produzida pela nova matriz – têm inevitavelmente um componente retórico, que nada tem a ver com patrulhamento. Tanto Lara Resende quanto seus críticos têm todo o direito de usar algumas expressões mais fortes, desde que tentem delinear seus pontos de vista de forma objetiva: e tanto um quanto os outros o fizeram.

E, finalmente, há o fato de que houve bem mais contestações do que concordâncias em relação aos artigos de Lara Resende. Isto denota simplesmente o fato de que, de um lado do debate, surgiram mais pessoas dispostas a defender publicamente seu ponto de vista do que do outro. A maioria convencional nem sempre está equivocada em relação aos outsiders com pensamento original. Basta pensar no debate sobre aquecimento global ou sobre vacinas e autismo – não por acaso, dois temas em que Donald Trump apoia a posição minoritária – para compreender este ponto. Em resumo, o debate sobre as ideias expostas por Lara Resende é bastante válido, e está ocorrendo de forma saudável.  (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/2/17, quarta-feira.

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