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Bráulio Borges, economista-chefe da LCA, criou metodologia para tentar prever pontos de virada do ciclo econômico. E tem uma boa notícia: sinais em outubro de que o pior pode ter passado. Mas Borges recomenda cautela por enquanto. É preciso esperar mais alguns meses para ter certeza (ou verificar que foi um alarme em falso)

Fernando Dantas

05 de novembro de 2015 | 23h14

Há indícios, que ainda são fracos, de que a atual recessão brasileira teve seu pico no terceiro trimestre, e que no momento a economia esteja num “turning point (ponto de virada)”. A análise é de Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, e se baseia num modelo que ele acaba de criar para detectar “turning points” em ciclos econômicos.

A constatação de Borges contrasta fortemente com o sentimento geral do mercado financeiro, de que não se enxerga ainda o fundo do poço – o que foi abordado ontem nesta coluna, em que se mencionou que as projeções de PIB para 2016 já caminham na direção de outra queda na faixa de 3%.

O economista da LCA, de início, faz ressalvas em relação ao seu próprio achado. Em primeiro lugar, caso o terceiro trimestre tenha sido efetivamente o pico da recessão, isto não significa que a economia vai crescer vigorosamente daqui em diante. Significa apenas que parou de cair. A partir daí, pode ficar estagnada, crescer em ritmo lento ou ter uma recuperação mais significativa – sua metodologia nada diz sobre estas alternativas. Como há carregamento estatístico, mesmo que o PIB pare de cair, pode haver números negativos em diversas medidas por um bom tempo.

A segunda ressalva é que o mês de outubro, para o qual o seu modelo indicou uma probabilidade relevante, ainda que fraca, de ausência de recessão, pode ser um alarme em falso. Ele testou sua metodologia para os ciclos econômicos do passado, e houve um mês de alarme em falso durante a recessão de 1998 e 1999. No mais, o teste validou de forma bem consistente a metodologia, segundo Borges.

A motivação do economista é o fato, empiricamente comprovado em estudos acadêmicos, de que os profissionais especializados em prever a evolução da atividade econômica demoram a perceber os “turning points” dos ciclos – tanto os que dão início quanto os que representam o fim de recessões.

“Eu pensei que não queria estar entre os últimos economistas a enxergar o ‘turning point’ desta recessão”, diz Borges.

O economista acrescenta que as instituições de datação de ciclo econômico – como o Comitê de Datação do Ciclo de Negócios do National Bureau of Economic Research (NBER), nos Estados Unidos; e o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), no Brasil – também apontam os picos e vales da atividade econômica com grande defasagem, por questões metodológicas.

Assim, ele partiu para criar uma metodologia que apontasse os pontos de virada, o que já existe, como no caso de alguns Feds (Federal Reserve, BC dos EUA) regionais. O problema é que estes indicadores usam dados cuja defasagem de divulgação impede um termômetro tempestivo, quase em tempo real, que era o objetivo do economista da LCA. “Eu queria algo mais instantâneo”, ele diz.

Borges optou então por usar dados de frequência muito alta e pouca defasagem de divulgação. Como o teste da metodologia para indicar os picos e vales de recessões passadas funcionou bastante bem, ele crê que não houve prejuízo em limitar o universo de dados dessa forma.

O indicador criado tem pouco menos de dez variáveis, incluindo “soft data”, indicadores de sentimento, e “hard data”, indicadores da economia real. São utilizados dados das sondagens da indústria e dos serviços da FGV e outros indicadores bem conhecidos, como produção de papel ondulado, fluxo nas rodovias, consumo de energia elétrica, dinheiro em circulação (papel moeda em poder do público mais depósitos à vista, M1, em termos reais) e números do comércio exterior.

Borges explica que a metodologia aponta resultados binários: isto é, a probabilidade de se estar ou não em recessão. Não há nenhuma medida da intensidade da recessão ou de uma eventual recuperação.

A grande novidade é que o indicador em outubro apontou uma probabilidade de 40% da economia estar em recessão, depois de números próximos a 100% desde abril.

Segundo o economista, uma probabilidade de 50% é uma espécie de divisor de águas. Assim, acima deste porcentual, pode-se dizer que é maior a probabilidade de estar em recessão do que não estar. Mas ela varia – 100% significa que é quase certo que se esteja em recessão, enquanto um número em torno de 60% indica que é provável que se esteja em recessão, mas pode ser considerado um indício fraco neste sentido.

Inversamente, uma probabilidade perto de zero aponta que é praticamente certo que a recessão tenha acabado. Já o número registrado, de 40%, significa que é provável que não se esteja mais em recessão, mas é um indício fraco deste fato.

Como já houve um alarme em falso no indicador, Borges acha prudente esperar. Para ele, se houver dois ou três meses com o indicador abaixo de 50%, e sobretudo se ele tender na direção de zero, aí sim pode-se afirmar com bem mais segurança que o pico da recessão foi o terceiro trimestre de 2015, e que já se passou pelo “turning point” do ciclo econômico – a partir daí pode vir estagnação ou crescimento (lento ou mais vigoroso). (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 5/11/15, quinta-feira

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