Convalescença ou recaída?

Grandes nomes da academia e das finanças internacionais revelaram em Davos opiniões diferentes sobre o estado atual da economia global.

Fernando Dantas

27 de janeiro de 2016 | 16h13

DAVOS – Passada a fase mais difícil do rescaldo da crise global, a economia do mundo ainda é vista como um paciente em estado delicado, que os médicos não sabem se sofre de recaída ou se engrenou uma lenta recuperação. Esta dúvida fundamental parece ser um dos grandes temas do Fórum Econômico Mundial de Davos de 2016, e explica por que os mercados estão nervosos e voláteis desde o início do ano.

Os aspectos mais visíveis do aumento da percepção de risco estão ligados à queda das commodities e aos problemas na China – fenômenos interligados –, com o temor de que a desaceleração do país asiático se torne desordenada e as autoridades econômicas embarquem numa série de medidas erradas, como as recentes intervenções desastradas nas bolsas. O pano de fundo mais amplo das preocupações, entretanto, envolve o medo de que a modesta retomada nos Estados Unidos e na Europa possa empacar e retroagir.

Ontem (22/1, sexta-feira), o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, cerrou fileiras com aqueles que pensam – como Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI, entrevistado na quinta-feira pela Agência Estado – que os mercados exageram o risco de retrocesso no mundo rico.

Falando especificamente da zona do euro, em sabatina no Fórum conduzida por Lionel Barber, editor-chefe do Financial Times, Draghi listou vários fatores que sustentam a recuperação, uma lista na qual incluiu até os futuros gastos fiscais para absorver o enorme contingente de refugiados que está chegando à Europa.

Segundo Draghi, a retomada europeia tem como fatores de sustentação a retomada do consumo, a política monetária expansionista, a queda do preço do petróleo e uma política fiscal na maioria dos países da zona do euro que é “neutra em termos gerais, se não levemente expansionista”. O quarto fator, ainda por ser ativado, seriam os gastos com os refugiados.

O presidente do BCE disse também que a recuperação europeia é mais sólida na atual fase por estar mais baseada no consumo, e menos em exportações.

Mas Draghi se revelou preocupado com a inflação da zona do euro, que ainda está bem abaixo do objetivo do BCE – inferior, mas próxima a 2%. Segundo o presidente do BCE, a queda do petróleo e das commodities, e seus efeitos secundários em outros preços, são fatores que pressionam para baixo a inflação da zona do euro.

Uma visão bem diferente foi delineada ontem no Fórum, em conversa com a Agência Estado por Michael Spence, prêmio Nobel de Economia, que acha a economia global cada vez mais frágil.

“Eu descreveria o padrão de crescimento global agora como insustentável – há uma dependência exagerada de política monetária, não há crescimento nominal (que considera o PIB real mais a inflação) suficiente, não há desalavancagem suficiente e há sub-investimento no setor público e privado por toda a parte”, disse Spence.

O prêmio Nobel acrescentou não saber se a economia global “vai apenas continuar a frear lentamente ou se vai ter um colapso”. Spence também disse que “não ficaria surpreso se os Estados Unidos crescessem menos de 2% em 2016”.

Para o economista, os países às voltas com baixo crescimento precisam de impulso fiscal, reformas estruturais liberalizantes e aumento dos investimentos, tanto públicos quanto privados.

“Muitas economias não crescem e o constrangimento primário não é produtividade, mas demanda – eu ouço muita conversa (sobre como impulsionar a demanda), mas nada sendo feito”.

Ele lembrou que os próprios dirigentes dos principais bancos centrais do mundo – como Draghi e Ben Bernanke, ex-chairman do Fed – advertiram várias vezes sobre as limitações da autoridade monetária para promover o crescimento sustentável, já que não fazem reformas estruturais nem tomam decisões fiscais.

Em relação às economias emergentes, Spence se disse otimista no longo prazo, mas acha que países sem uma taxa de investimento de 30% ou mais do PIB não conseguem crescer a um ritmo de 6% ao ano, compatível com uma convergência rápida para o padrão dos países mais ricos.

Ele enfatizou ainda que os investimentos públicos e privados devem ser complementares, e que os primeiros aumentam a rentabilidade dos últimos.

Quanto ao Brasil, o prêmio Nobel disse que se trata de uma economia “fundamentalmente sólida, que vai se recuperar, mas isso vai demorar algum tempo”. Para ele, com a combinação de fim da alta das commodities, excesso de capitais financeiros que entraram no País em função das altas taxas de juros, problemas fiscais e governo paralisado pela corrupção, o Brasil “vai certamente passar por maus momentos durante algum tempo”. (fernando.dantas@estadao.com)

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