Convergência de diagnósticos?

Samuel Pessôa, economista próximo aos tucanos, está mais esperançoso quanto a algum consenso em termos de propostas básicas durante a campanha presidencial deste ano.

Fernando Dantas

17 Abril 2018 | 16h34

O economista Samuel Pessôa, que participou da equipe econômica da última campanha tucana, quando Aécio Neves era aposta do PSDB para a presidência da República, anda mais otimista sobre o debate econômico público no Brasil.

Pessoa considera que há algumas convergências importantes entre economistas ligados aos tucanos, e ao centro e à centro-direita em geral, de um lado, e os economistas mais destacados no campo da esquerda, do outro. Neste segundo caso, ele pensa principalmente em Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda, e economistas ligados a ele.

O principal ponto de convergência seria a visão crítica dos excessos da política econômica de 2012 a 2014. Está longe de ser, obviamente, um assentimento por parte dos economistas ligados ao PT à crítica feroz dos liberais ao que se convencionou chamar de “nova matriz econômica”, e que, certamente, nesta visão condenatória, começou bem antes de 2012.

Barbosa, por exemplo, no seu último artigo para a Folha de São Paulo escreveu que “a inflexão da política econômica do governo Lula em 2006-2010 deu tão certo que gerou excessos nas ações do governo, sobretudo a partir de 2012”.

Esses excessos, segundo o ex-ministro, foram “projetos superdimensionados, adiamento de reformas necessárias e intervenção excessiva em alguns mercados”.

Provavelmente existe concordância de que a pior fase da política econômica petista foi justamente o período de 2012 a 2014, quando a aposta na nova matriz foi dobrada e redobrada, levando à crise de 2015 e 2016. A diferença está em que economistas liberais, como Pessôa, veem o período 2012-2014 como o apogeu do desvio em relação à política liberal e ortodoxa que prevaleceu de 1999 a 2005. Já Barbosa considera que os grandes erros de 2012-2014 foram consequência da complacência que se criou com o próprio sucesso da política econômica de 2006 a 2010.

Não é desprezível esse ponto de consenso encontrado entre os dois campos. Há uma série de consequências em termos de recomendação de políticas econômicas que derivam dessa visão comum, e que estão na pauta tanto de economistas ligados aos tucanos como ao PT. Neste segundo caso, porém, com a radicalização de esquerda recém-implementada por Lula e pelas lideranças petistas, como reação à prisão do ex-presidente, é grande a dúvida sobre se uma política econômica ao estilo de Barbosa poderia ser tocada no caso de uma vitória da esquerda nas eleições deste ano.

De qualquer forma, ajuste fiscal, reforma da Previdência, mudanças tributárias para aumentar a progressividade do sistema, foco em políticas para aumentar a produtividade e mais cuidado nas tentativas de intervenção na economia certamente são pontos defendidos tanto por economistas ligados aos tucanos quanto pelo grupo próximo ao PT que tem Barbosa como principal liderança.

Isso não quer dizer, por outro lado, que haja consenso em todas as áreas. Dois temas se destacam como divisores de opiniões mesmo entre os economistas que defendem a agenda mencionada acima: política industrial e abertura comercial.

As divergências dentro do próprio governo Temer em relação ao Rota 2030, o novo plano de apoio e subsídios à indústria automobilística, e as reações à proposta da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) de uma nova rodada de abertura comercial unilateral indica que estes são debates que estão muito longe de estarem pacificados.

Do ponto de vista dos mercados, entretanto, uma simples convergência em relação à pauta de ajuste fiscal e equilíbrio macroeconômico já seria um bálsamo. O problema é que, numa eleição com tantos outsiders, com um candidato competitivo de extrema-direita e com a esquerda radicalizada, um consenso parcial entre economistas ligados ao PSDB e ao PT é muito pouco consolo, e soa tardio. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/4/18, sexta-feira.