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Copa se vai, projeção de PIB cai

Fernando Dantas

16 de julho de 2014 | 10h54

Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa, há alguns anos, falou-se do efeito positivo que a organização do torneio e o evento em si poderiam ter na economia. O mesmo ocorreu em relação à Olimpíada. É irônico, portanto, que, na semana após a grande final da Copa – da qual o Brasil não participou após ter sido humilhantemente goleado por 7 a 1 pela Alemanha –, o que chama a atenção na economia é uma nova rodada de redução das projeções de crescimento do PIB.

“Não é nada difícil que fique entre 0,5% e 1% este ano”, diz o economista-chefe de uma importante instituição financeira. Na verdade, vários bancos e consultorias já reviram ou estão revendo suas projeções, e números abaixo de 1% são agora fáceis de encontrar.

Uma das razões para o pessimismo são os dados antecedentes ruins da produção industrial de junho, como consumo de energia, tráfico de veículos pesados nas estradas e produção de veículos – neste último caso, com recuo de 33,3% em relação a junho de 2013.

Evidentemente, a própria Copa, com feriados e as interrupções do trabalho e do consumo pela prioridade em assistir aos jogos, afetou o comércio e a indústria. Assim, é esperada a partir de agora uma recuperação parcial dos níveis muitos ruins das últimas semanas.

O problema, como explica Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX Investimentos, é que os indicadores de confiança também têm sido muito desanimadores. Os índices recuaram no segundo trimestre de 2014 para níveis próximos dos registrados em meados de 2009, quando a economia ainda estava às voltas com a crise econômica global.

Embora a queda da confiança possa ter um componente de curto prazo ligado diretamente à expectativa dos empresários de diminuição dos negócios durante a Copa, o movimento é amplo e duradouro demais para que este seja considerado um fator fundamental. Para Solange, se não houver uma melhora substancial nos próximos meses, ficará demonstrado que é mais um problema estrutural do que conjuntural. A projeção de crescimento da ARX para 2014 é de 0,8%.

Para a economista, o problema fundamental é a pouca visibilidade de como será a economia a partir de 2015. Ela acha que o mercado projeta um cenário muito binário, baseado nas previsões do que seria a política econômica da presidente Dilma Rousseff, caso se reelegesse, ou do candidato de oposição que até agora mostra mais chances, o tucano Aécio Neves. “O mercado acha que pode ser uma coisa ou outra, muito diferentes, sem cenários intermediários no meio”, ela diz. A economista refere-se a um ajuste mais forte da economia, que a maior corrente de analistas crê que Aécio faria e Dilma não.

Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV-Rio, considera que a deterioração da confiança deve-se ao fato de que “estamos numa espécie de fim de festa, em que não surgem notícias boas nem para este ano nem para o próximo”.

Ela vê os empresários se dando conta de que a desaceleração tem causas estruturais, e que o governo não tem mais recursos para tentar impulsionar a economia. Outro problema, segundo a economista, é que a perda de dinamismo parece cada vez menos um ajuste necessário da economia, já que as expectativas de inflação permanecem muito elevadas tanto para 2014 quanto para 2015. “Não se vislumbra nenhum benefício, e isso acaba pesando negativamente na confiança tanto de empresários quanto de consumidores”, conclui Silvia.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 14/7/14, segunda-feira.

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