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Copom: desistência ou cautela?

Projeção do IPCA em 2021 está muito abaixo da meta, mas BC sinaliza que redução da Selic a partir de agora, se houver, será "residual". Alexandre Schwartsman vê desistência da meta do próximo ano, enquanto outros analistas justificam a postura do BC como "cautela".

Fernando Dantas

24 de junho de 2020 | 10h35

Em seu relatório sobre a ata do Copom, o economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, conclui que o Banco Central parece ter desistido – “jogado a toalha” – de atingir a meta de inflação de 2021.

É uma afirmação forte, a que Schwartsman chega depois de uma minuciosa análise da comunicação do BC na ata e das projeções de mercado e do modelo do Banco Central para 2020 e 2021.

A visão do economista, interessantemente, conversa com um ponto que José Júlio Senna, do Ibre/FGV, tem feito recentemente sobre a política monetária no Brasil.

Ao contrário da maioria dos países com regimes de meta de inflação, no Brasil não foi fixada ainda uma meta permanente. As metas no regime brasileiro são para os anos-calendário, e têm uma trajetória cadente.

Assim, a meta deste ano é de 4%, a de 2021, de 3,75%, e a de 2022, de 3,5%. Ainda este mês espera-se que o Conselho Monetário Nacional (CMN) determine a meta para 2023. A se manter a sequência, ela iria para 3,25%, embora haja economistas que defendam que a meta não deva ser mais reduzida.

De qualquer forma, o BC poderia, em tese, já estar olhando de fato para além de 2021 e para horizontes em que a inflação tenderia para 3%, que poderia ser uma meta permanente para o Brasil, já que o é para outros países latino-americanos.

Schwartsman chega a apontar que, na ata divulgada hoje, o BC menciona que o horizonte da política monetária “inclui” 2021.

Uma primeira leitura poderia ser a de que inclui 2021 além de 2020 – o que talvez seja óbvio demais, além de que, na verdade, ninguém mais acha que o BC está mirando a meta de 4% para o ano calendário de 2020, que se tornou virtualmente inatingível, com o panorama que se enxerga hoje.

O que Schwartsman sugere é que o “inclui 2021” pode na verdade estar apontando para os anos que virão depois do próximo.

Mas há uma ressalva relevante no paralelo que se fez aqui.

Schwartsman, ao mencionar o que seria a “desistência” da meta de 2021, não dá a isso conotação positiva, ao passo que Senna vê com naturalidade uma política monetária que também mire a trajetória cadente das metas em horizontes mais amplos.

A impressão de uma possível desistência da meta de 2021 vem das projeções de mercado e do modelo do BC para o IPCA do próximo ano.

A do Focus (mercado) é de 3%. A projeção do BC no cenário híbrido (Selic a 2,25% ao final de 2020 e 3% ao final de 2021, e câmbio constante a R$ 4,95) é de 3,2%. E a projeção do IPCA no próximo ano, com Selic de 3% e câmbio de R$ 4,95 até o final de 2021, é de 3%.

Ou seja, são projeções bem abaixo da meta de 3,75% para 2021. Diante disso, parar de reduzir a Selic, ou no máximo fazer um corte adicional de 0,25% na próxima reunião em agosto – conforme sinaliza a comunicação do comunicado e da ata –, significa aumentar o risco de descumprimento da meta em 2021, na visão de Schwartsman.

Há, claro, o chamado balanço de riscos, para o qual o próprio economista dá uma boa definição: fatores não modeláveis.

Segundo a ata, o risco desinflacionário é que a ociosidade na economia, ampliada pela megarrecessão da Covid-19 e pela tendência das pessoas, em tempos difíceis, a poupar em vez de consumir, pode fazer a inflação ter uma trajetória abaixo da projetada pelos modelos.

No outro lado da balança, como risco inflacionário, há dois fatores. O primeiro é um possível efeito estimulativo maior do que o previsto dos pacotes de ajuda a pessoas, empresas e entes subnacionais lançados pelo governo para se contrapor à pandemia.

O outro é o risco de descontrole fiscal com todo o gasto da pandemia, que pode elevar prêmios  de risco. Prêmio de risco mais alto pode significar câmbio mais desvalorizado e taxa neutra de juros mais elevada, o que são fatores potencialmente inflacionários.

Silvio Campos Neto, economista da Tendências, considera que, diante do balanço de riscos e das grandes incertezas trazidas pelos efeitos econômicos da pandemia, não é possível afirmar de forma categórica que o Copom tenha desistido de perseguir a meta.

“É muita incerteza, um evento sem precedentes, e na ata o BC manteve os alertas que vêm fazendo”.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, chama a atenção para a menção na ata de que o movimento de queda das expectativas inflacionárias parece ter cessado nas expectativas inflacionárias embutidas nos títulos públicos.

É verdade que a ata também disse, por outro lado, que a queda das expectativas de inflação prossegue no Focus. Rocha, no entanto, vê na menção da inflação implícita um sinal de que as “revisões de cenário econômico”, às quais o Copom se diz atento, não necessariamente conduzem apenas à direção de surpresas desinflacionárias.

O gestor acrescenta que a inflação corrente de junho e julho será mais alta, o que poderia frear também a queda das expectativas inflacionárias do Focus até a próxima reunião do Copom em agosto.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/6/2020, terça-feira.

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