carteira

As ações mais recomendadas para dezembro, segundo 10 corretoras

Copom: está na hora de a bola rolar

Coluna da semana passada sobre as perspectivas de início do ciclo de queda da Selic, que de fato começou na quarta-feira, 19/10, com um corte de 0,25 ponto porcentual.

Fernando Dantas

21 de outubro de 2016 | 18h57

É considerado muito provável no mercado que o Banco Central (BC) de Ilan Goldfajn faça sua primeira efetiva mexida na Selic, taxa básica de juros, na semana que vem, na reunião do Copom da terça e quarta-feira. Desde junho, quando assumiu, o presidente do BC, reforçado por nomeações de peso como Carlos Viana e Tiago Berriel, fez um competente trabalho de recuperação de credibilidade e reancoragem de expectativas. Na quarta, porém, deve colocar concretamente a bola do juro para rolar.

Ainda há entre os analistas quem ache que o BC deveria esperar mais, mas estes são claramente uma minoria. Segundo Alexandre Schwartsman, consultor e ex-membro do Copom, “se é para cortar este ano, seria melhor em novembro do que em outubro”, ainda que considere esta questão de timing de corte em 2016 uma filigrana. Idealmente, Schwartsman esperaria mais, até que as expectativas e projeções do modelo do BC se aproximassem bastante dos 4,5% em 2017.

Ele nota que o cenário de mercado do modelo do BC no Relatório de Inflação de setembro previu IPCA de 4,9% em 2017, considerando expectativas de trajetória da Selic que contemplariam um corte de 0,5 ponto porcentual (pp) na última reunião de 2016, em novembro. “Mesmo este cenário, um pouco mais moderado em relação ao de início de corte em outubro, entrega um IPCA no ano que vem de quase 5%”, ele nota. Schwartsman também aponta uma questão levantada por outros economistas, de que o modelo do BC mostrou ao longo dos últimos anos uma tendência a subestimar sistematicamente a inflação.

Quanto ao argumento de que o BC, em termos de horizonte relevante da política monetária, já deve começar a levar em conta 2018, em que seria possível o IPCA ficar abaixo de 4,5%, o consultor diz que “não vejo problemas em ficar um pouco abaixo da meta em 2018, entre 4% e 4,5%, o que ajudaria a ancorar mais fortemente a inflação e traria de volta a ideia de que o IPCA flutua em torno da meta, e não que fica ou na meta ou acima dela”.

Já Alexandre Ázara, economista-chefe da gestora Mauá Capital, considera que incorporar 2018 no horizonte relevante de política monetária é, sim, uma razão para o Copom começar a reduzir a Selic na próxima semana.

“Acho que o corte deve ser de 50 (0,5 pp) porque claramente há uma desaceleração muito forte da inflação”, diz Ázara.

Ele observa que, excluindo-se passagens aéreas e hotéis que foram pressionados pelo evento único da Olimpíada, há uma continuada queda da inflação de serviços. No front fiscal, a primeira votação favorável à PEC 241 na Câmara aconteceu com mais votos e mais cedo do que se esperava. E os números recentes “supertranquilos” da inflação de alimentos são uma surpresa positiva, para Ázara.

Adicionalmente, a redução do preço da gasolina deve levar a projeção de inflação do BC para 2016 de 7,3% para no máximo 7%, e deve reduzir no mínimo em 0,1 pp a projeção para 2017. “Com esses 0,4 de queda, a lógica aponta corte de 50”, raciocina o economista.

Ázara prevê IPCA de 6,75% para 2016, acrescentando que “se não fosse o choque enorme nos alimentos do pior El Niño da história em abril e maio, a inflação deste ano poderia ter ficado em 6%”. Para 2016, sua projeção de IPCA é de 4,8%, mas ele acrescenta que esta é satisfatória diante do risco de ficar abaixo de 4,5% em 2018. A Mauá Capital prevê Selic de 13,25% no final do ano, com dois cortes de 0,5 pp nas reuniões de outubro e novembro.

No meio do caminho entre Schwartsman e Ázara fica Alexandre Póvoa, sócio-fundador da gestora Canepa, no Rio, que prevê corte de 0,25 pp na quarta-feira, e Selic de 13,5% no final deste ano, com mais uma redução de 0,5 pp na reunião do Copom de novembro.

Póvoa louva o trabalho de reconstrução de credibilidade de Ilan e sua equipe, inclusive por não ter sancionado apostas de mercado de cortes na reunião de agosto e até na de julho (um elogio também feito por Schwartsman). Ele nota ainda que o BC, em sua comunicação mais recente, até buscou desamarrar as mãos em relação às sinalizações muito rígidas do período inicial de conquista de reputação.

Assim, diante de níveis de queda de atividade que ainda são muito preocupantes, e de alguma melhora no front inflacionário, Póvoa acha que dá para cortar 0,25 agora, mas sem sinalizar um ciclo mais agressivo de afrouxamento monetário.

Ele ressalva que o IPCA em 12 meses está em 8,5% e o IGP em 10%, e que a inércia está muito forte. “’By the book’ talvez não haja espaço para corte, mas a política monetária tem que olhar o filme todo, o juro real brasileiro é muito alto e ninguém vai achar que uma redução agora é loucura – mas tudo isso, na minha opinião, autoriza uma queda de 0,25, e não de 0,5”, diz o economista.

Póvoa acrescenta que o BC deve continuar a monitorar o nível da inércia e o ritmo e a qualidade das reformas, e prosseguir condicionando a intensidade do ciclo de relaxamento monetário a estes fatores. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada em 14/10/16, sexta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: