Copom sob pressão

Comitê de política monetária do BC se reúne de novo a partir de hoje, com a economia rastejando e uma corrente de economistas pedindo novos cortes da Selic. Bráulio Borges, da LCA e Ibre/FGV, vê juro real neutro em 2,5% e terceiro trimestre consecutivo de política monetária neutra (o BC acha que ela tem sido estimulativa).

Fernando Dantas

07 de maio de 2019 | 10h23

Com a projeção mediana do crescimento do PIB em 2019 caindo para 1,49% no relatório Focus divulgado hoje (6/5, segunda-feira), e a possibilidade de um PIB negativo no primeiro trimestre, devem se intensificar as pressões para que o Comitê de Política Monetária (Copom), que se reúne para mais uma decisão sobre a Selic na terça e quarta-feira desta semana (dias 7 e 8/5), volte a considerar de forma mais incisiva novos cortes da Selic.

Em estimativa recém-concluída, Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, conclui que a taxa de juro real neutra no Brasil hoje está em 2,9% em “steady state” (condições mais regulares de funcionamento da economia), mas no curto prazo caiu para 2,5% no primeiro trimestre de 2019.

A taxa neutra de curto prazo está abaixo do “steady state”, segundo Borges, por conta do crescimento real per capita brasileiro quase nulo verificado desde 2014, do risco-país relativamente baixo (devido à sólida posição externa) e da taxa real neutra dos Estados Unidos mais reduzida, de cerca de 0,5%.

“Pelos meus cálculos, a política monetária brasileira está em território neutro (não estimulativo) há três trimestres”, diz o economista da LCA.

Evidentemente, estimativas da taxa neutra, que dependem de variáveis não diretamente observáveis como PIB potencial e hiato do produto, variam bastante.

Para o BC, a atual postura da política monetária é estimulativa. Entretanto, na sua comunicação recente, a autoridade monetária informou que está avaliando até que ponto os choques do ano passado – como a greve dos caminhoneiros e a crise argentina – podem ou não ainda estar manifestando efeitos que explicariam a marcha extremamente lenta da recuperação brasileira.

Mas o BC indicou que faria isso sem muita pressa, o que aparentemente não se coadunaria com já ter uma resposta pronta para aquela questão e tomar sua decisão dessa quarta-feira em função dela.

Adicionalmente, a inflação corrente tem se mostrado mais elevada e há o temor de que a crise da gripe suína na China possa afetar globalmente a cadeia das proteínas e trazer altas destes itens no segundo semestre. Apesar de estar sempre mais ligado nas pressões inflacionárias mais autênticas, que se refletem nos núcleos, do que em altas episódicas causadas por choques de oferta, o sistema de metas de inflação oficialmente trabalha com o IPCA cheio – e o BC não pode ignorar totalmente este fato.

O câmbio, por sua vez, não tem exatamente contribuído para abrir o caminho para novos cortes da Selic, embora a experiência do ano passado tenha mostrado que mesmo desvalorizações bem fortes podem ter impacto inflacionário pequeno no cenário de elevada capacidade ociosa que o Brasil enfrenta.

A reforma da Previdência, por sua vez, permanece uma grande interrogação. O governo Bolsonaro subverteu todos os códigos de relacionamento com o Congresso e ninguém sabe exatamente o que resultará desta arriscada escolha em termos da aprovação (e do grau de diluição) da principal iniciativa do novo governo neste primeiro ano de mandato.

O BC, instituição geneticamente conservadora, certamente não deve estar contando com probabilidade muito alta de aprovação de uma reforma amplamente satisfatória do ponto de vista fiscal.

Dessa forma, o Copom se vê num fogo cruzado de fatores que apontam em direções opostas, e mais uma vez atravessa um período em que haverá um pesado escrutínio crítico das suas decisões.

Por enquanto, Jair Bolsonaro não emulou seu estadista preferido, o presidente Donald Trump, que pressiona abertamente o Fed, BC americano, para relaxar a política monetária, mesmo com a economia americana apresentando recorde de baixa da taxa de desemprego. Aqui, na situação inversa, o presidente da República até agora respeitou religiosamente o mandato informal de autonomia do Banco Central. É pelo menos uma postura de Bolsonaro à qual se deve dar o devido crédito. Tomara que perdure.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast 

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/5/19, segunda-feira.