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Copom vai falar grosso?

Com grande piora do cenário inflacionário desde a última reunião, em setembro, mercado ainda prevê manutenção da Selic em 2%, mas corrente de analistas espera um endurecimento da linguagem do Copom no comunicado de final de reunião a ser divulgado hoje.

Fernando Dantas

28 de outubro de 2020 | 11h00

Para diversos analistas, a linguagem do comunicado do Copom, a ser divulgado nesta quarta-feira (28/10), quando a reunião de outubro terminar (começou ontem), tem que mudar.

A situação se alterou completamente desde a última reunião, em 15 e 16 de setembro.

“Há menos de dois meses, as pessoas estavam vendo inflação abaixo de 2% este ano e chegando a 3% em 2021; agora está caminhando para até 3,5% tanto em 2020 quanto 2021”, resume um gestor muito respeitado em termos de política monetária.

O problema básico, ele explica, é que o coronavírus aumentou muito a margem de erro das projeções de atividade econômica e inflação.

Primeiro veio a pandemia, um evento absolutamente único (em termos do nível de paralisação econômica mundo afora), sem parâmetros prévios. Foi preciso projetar a magnitude e a dinâmica do choque, mas ninguém tinha como fazer isso de forma consistente.

“Em março e abril, as pessoas viam o precipício em termos de atividade, e as projeções de inflação caíram juntos”, nota o gestor.

Depois vieram as reações do governo ao choque (no Brasil e internacionalmente). Novamente, eram eventos inéditos, e também não foi muito fácil de, desde o princípio, projetar magnitudes e dinâmicas, em termos de efeitos na economia.

A ficha de quão gigantesco seria o impacto na demanda de segmentos de consumo popular, como alimentos e materiais de construção, do (também gigantesco) auxílio emergencial demorou a cair.

Diante das margens de erros ampliadas, o Banco Central, na visão de uma corrente da analistas, resolveu ir para um lado só: o do risco de que a atividade econômica derretesse ainda mais do que esperado, e que a inflação caísse junto.

Agora, a realidade foi toda – pelo menos momentaneamente – para o lado oposto, e a autoridade monetária se vê com o pé trocado.

Nesse contexto, discutir se ainda pode haver uma queda residual da Selic, ainda que minúscula, como o BC veio fazendo nas últimas comunicações por escrito, parece ter perdido o sentido, na visão de muitos.

Mesmo o forward guidance, ou prescrição futura, na tradução do BC, parece ter se tornado mais problemático à medida que as expectativas de inflação para 2021 se aproximaram mais da meta de 3,75% – se chegarem muito próximas, isso constitui, inclusive, uma condição para que o forward guidance deixe de valer, segundo o BC.

A visão é de que talvez seja prematuro o Copom descartar a prescrição futura já no comunicado desta reunião de outubro – embora o gestor mencionado acima não exclua essa hipótese como um cenário de menor probabilidade –, mas o dispositivo poderia ser mais discutido no comunicado e na ata.

Aliás, Roberto Campos Neto, presidente do BC, já mencionou o tema de se retirar o forward guidance, o que não significaria que a Selic subiria de imediato. Haveria até a possibilidade de retirar a prescrição futura e depois voltar com ela (quando, por exemplo, a situação fiscal de 2021 ficasse mais definida), mas parece inquietação demais para o ideal de comportamento mais fleugmático dos bancos centrais.

“Problematização” do forward guidance e fim da ênfase na possibilidade de cortes adicionais da Selic, portanto, são artigos esperados na cesta de informações e análises do comunicado e da ata da reunião do Copom de outubro.

Quanto à Selic em si, a expectativa geral é de que ela permaneça em 2%, mas, novamente, alguns analistas esperam que o BC não sinalize mais que esse é um nível tão confortável e duradouro quanto parecia há dois meses – na verdade, os primeiros alicerces para guiar as expectativas do mercado sobre quando e em que condições viria uma elevação da Selic poderiam até constar da comunicação da reunião de outubro.

Outra questão, mais espinhosa, é a fiscal. Agora, o desarranjo das contas públicas ficou ligado de forma mais direta e imediata à ameaça de piora da inflação. Isso se dá tanto via risco país e depreciação do câmbio quanto – caso o governo estenda as transferências vinculadas à pandemia para 2021 – pela eliminação de um fator de contenção da demanda no primeiro semestre do ano que vem, que é justamente o fim do auxílio emergencial e outros benefícios.

Será que o Copom continuará olimpicamente a registrar apenas se o regime fiscal está ou não mantido, de maneira binária (está mantido enquanto não explodir), ou também “problematizará” de forma mais incisiva os riscos derivados das contas públicas?

São muitas as dúvidas e, sem dúvida, o comunicado a ser divulgado no final da tarde de amanhã será devorado pelo mercado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/10/2020, terça-feira.

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